sábado, 10 de maio de 2014

A igreja



Num país tradicionalmente católico, a Igreja, enquanto instituição, desempenhou um papel primordial na condução do nosso percurso histórico. Desde a reconquista, ao desastre da Alcácer-Quibir ou impressa nas páginas negras do índex, foi sempre a mão obscura do poder por detrás do trono. Ainda hoje, a laicismo crescente da sociedade não impede que os portugueses se assumem, maioritariamente, como católicos, embora cada vez menos praticantes. A prática religiosa, em particular nas pequenas localidades, desempenha um papel social que vai muito além espiritualidade do culto. É um factor estruturante, agregador de valores comuns e tradições seculares que as consolidam enquanto comunidades. A reunião pós- eucarística, no adro, é tão importante como a liturgia dominical. Aí se confraterniza com conterrâneos e vizinhos; trocam-se cumprimentos e novidades; discute-se futebol e outras desnecessidades, necessárias à socialização. No passado, também se arrendava o monte à transumância; leiloavam-se propriedades e, no domingo gordo, o fumeiro ofertado a Santo António; assim como se combinada o preço da carrada de lenha com os vizinhos de Vale de Papas. Mas, mais importante que a espiritualidade da instituição é o edifício que lhe dá forma. A Igreja materializada na pedra cinzelada das cornijas e torres sineiras, onde altaneiros sinos tanto chamam os fiéis às obrigações da alma, como tocam a rebate para acudir a um incêndio ou reunir o gado na vigia. A arte de repenicar os sinos não está ao alcance de todos, apenas os mais coordenados e de bom ouvido dão bons executantes. Dizem que o cego Amílcar era o melhor neste mester. A ausência da visão apurou-lhe os outros sentidos, dotando-o de uma sensibilidade invulgar para tocar a melodia ritmada e diatónica dos baptizados, assim como destrinçar os ingredientes impressos nos odores do caldo do jantar, permitindo-lhe afirmar indignado:
-Este caldo cheira a moira!... Vós comeste e não me deste!
Nos primórdios da fundação da Gralheira, provavelmente, terá sido erguida uma pequena ermida que foi crescendo em paralelo com o lugar. A igreja velha, de que há memória, remonta até 1950, ano em que foram terminadas as obras de ampliação. Elevou-se o pé direito e aumentaram o comprimento, anexando-lhe uma torre contígua que substituiria o antigo campanário. Lamento, que este histórico monumento não tivesse sido preservado, pois tinha muito mais valor arquitectónico que este novo estilo incaracterístico, embora bem talhado, que pretendia rivalizar, em tese, com a abobadada cúpula românica da vizinha Panchorra.
Esta obra foi possível devido ao empenho do “Sr. Cailo”, emigrante de sucesso no Brasil, que supriu os parcos recursos angariados na povoação com a doação de trinta contos. Munido desta quantia pôde o presidente da junta, o “Tiu Artur”, contratar os serviços de três pedreiros reputados: Mestre Espada, que arquitectou e desenhou, numa parede caiada, a planta da construção; Gaudêncio, artífice experimentado e Maurício, jovem destemido que causava espanto pela agilidade e o à-vontade com que se movia nas alturas.
No povo recaiu a penosa tarefa de transportar as pedras necessárias para a construção do projeto. Estas eram cortadas nas fragas do Fojo e, toscamente aparelhadas, levadas em carros de vacas para a obra. Para o efeito, foram construídos dois robustos carros em sólida madeira de carvalho, maiores que o padrão habitual e com a inclusão de um travão manual para facilitar o esforço dos animais nas calçadas mais íngremes. Embora houvesse muitas vacas, era com demasiada periodicidade que os lavradores se viam intimados a cumprir a escala do transporte da pedra. Quando viam o presidente bater-lhes à porta, murmuravam entre dentes:
- Lá vem o “Leão de Roças”
Mas, como era uma autoridade daquele tempo, lá tinham que comparecer à chamada. Apenas o “Tiu Manelzinho”, farto de tanta carretada, e como sabia, pelo desenho do Espada, que a torre terminava num pináculo semelhante à corucha de uma meda, achou que já tinha altura suficiente, apesar de pouco passar do arco que dá passagem pelo adro, e disse resoluto:
- ”Incruche”!...”Incruche!”
Mas só “incruchou” catorze metro acima do solo, rematada por uma esfera bem lavrada, tornando-a em obra acabada que valeu os três anos de trabalhos compelidos.
Quanto à distribuição dos fiéis esta obedecia a um preceito baseado no sexo dos indivíduos. Os homens ocupavam o coro e a parte junto ao altar-mor, enquanto as mulheres ficavam o espaço compreendido entre a porta lateral e a entrada principal. Como as senhoras não respeitavam religiosamente este acordo tácito, resolveram colocar uma grade para delimitar as duas zonas. Grade essa que foi protagonista de um episódio caricato, quando o “Encravelhado”, ainda criança, meteu a cabeça entre as barras de madeira e criou o dilema de serrarem a grade ou cortarem-lhe a respectiva. Por sorte, esta saiu e ainda hoje a conserva entre os ombros.
Mais tarde, a separação sexista foi abolida e foram colocados bancos que substituíram as cadeiras particulares, democratizando o conforto e permitindo aos homens do coro, cansados das vessadas, assistirem ao terço dormindo a sono solto, encobertos pela muralha de rapazes que ficavam de pé encostados ao varandim, para apreciarem as raparigas e fazerem algumas picardias. Lembro-me, num domingo de ramos, estarem a assistir à celebração da missa quatro antropólogas que faziam uma investigação de mestrado e que foram constantemente bombardeadas com pedaços de madeira de loureiro. Se o “Escudela” fosse vivo seria mais difícil, pois enquanto rezava ia distribuindo “mosquetes” e cotoveladas aos que não estavam com o devido respeito na casa Deus. Era devoto fervoroso que rezava algumas ladainhas muito à sua maneira, pois como tinha dificuldade em pronunciar o verbo dar, em vez de repetir, como os demais – seja para vós- dizia por conta própria:
-Seja para nós!
Fazia-o com tal veemência que, certa ocasião, cuspiu a dentadura postiça. Ao vê-la cair junto dos pés das mulheres que estavam por baixo, gritou alarmado:
- Cuidado mulheres, que me pisais a “dantuça”!
Mas esta foi-lhe entregue sã e salva e de imediato recolocada no lugar.
A última grande intervenção foi efectuada já neste século, restaurou-se o telhado e a bela talha dourada, muito maltratada por intervenções anteriores. Desta vez, foram chamados mestres douradores que lhe devolveram o esplendor original.
Todas as comunidades sentem orgulho na sua Igreja e os gralheirenses não são exceção. Mesmo alguns incréus nos dogmas das escrituras se coíbem de assistir, pontualmente, à missa de domingo e entoar cânticos com um prazer divinamente humano. Porque a ideia de Deus que existe dentro de cada um de nós, ultrapassa a personificação cristã que o criou à nossa imagem e semelhança.  
Os templos, de todas as religiões, perduram e perdurarão muito para além dos seus construtores e do culto que lhes deu forma. Não é por acaso, que são:
“Velhos como as igrejas” !
Vitor Silvestre

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