sábado, 30 de abril de 2011

Casas de Montanha da Gralheira

Já estão em funcionamento as Casas de Montanha da Gralheira. São dois T1s construídos em madeira, com capacidade para 4 pessoas cada um, que vão possibilitar uma estadia agradável e confortável a todos aqueles que quiserem visitar e desfrutar da tranquilidade da nossa aldeia e da beleza da nossa serra.
 
 





segunda-feira, 25 de abril de 2011

O Compasso Pascal

O compasso, efetuado no domingo de Páscoa, permanece intrincado nos rituais religiosos das pequenas comunidades. Esta prática, outrora generalizada, foi-se perdendo nos meios mais cosmopolitas. Grandes áreas demográficas e a laicização da sociedade inviabilizaram, restringiram ou modificaram a sua realização.
Mas, na Gralheira, a tradição ainda é o que era. Todos os anos, o cortejo pascal percorre as ruas da freguesia com a pragmática instituída. Constituído por cinco elementos: Padre, sacristão com a cruz, campainha, caldeirinha e o do folar. O primeiro e o segundo são inerentes ao cargo, o terceiro é nomeado pelo sacristão, os restantes são designados pelo padre e o lugar é, praticamente, vitalício. Em especial o último, pois tem de ser da inteira confiança para colocar os e envelopes segundo a ordem do percurso, para o pároco poder contabilizar quanto recebeu de cada paroquiano e garantir que nenhuma oferta seja subtraída. O que a acontecer, não seria inédito.
Os moldes em que decorrem a visita pouco se alteraram, mas o folar que era pago em ovos, gradualmente, foi substituído por dinheiro. Isso facilitou a vida ao padre e ao seu fiel depositário. Eliminando, num dia de passos ébrios, o risco da perda de artigos tão perecíveis e o incomodo de carregar com a cesta destinada ao transporte dos mesmos. Foram estas circunstâncias que propiciaram a história que vou contar:
O “Gabiru”, certo ano, foi indigitado pelo prior para fazer parte do séquito do compasso, com a incumbência de recolher os ovos. Compareceu no adro, integrou a comitiva e foi executando a tarefa que lhe fora confiada, mas com determinada peculiaridade. Ao contrário dos seus antecessores que quando tinham necessidade de despejar a cesta se dirigiam a casa do pároco, resolveu estabelecer uma parceria quanto à divisão dos proventos. Assim, alguns carregamentos foram parar à sua despensa, ao invés da residência. Como a quantidade recebida era abundante e o “Gabiru” teve o bom senso de ser comedido na partilha, o desfalque não foi notado. Mas, no ano seguinte, quando se apresentou para a “desobriga”, perante o confessor, não teve coragem de omitir a falta e disse:
- Ò Sr. Abade, o ano passado roubei parte do folar que lhe era destinado.
O padre, incrédulo com tal acto, reflectiu e disse-lhe:
- Cometeu um pecado muito grave, para ser perdoado tem que comprar uma bula de composição.
- E quanto custa?
- Dez tostões.
O homem, surpreso com a cifra, não se conteve e exclamou:
- Ovos tão baratos, nunca comi na minha vida!..
Esta história foi-me contada por várias pessoas que afirmaram tê-la ouvido do próprio. Se assim foi, só ele e o padre a podiam confirmar, mas tal já não é possível.
Independentemente deste episódio ser ou não verídico, o dia de Pascoa continua a ser uma festa animada e de grande convívio na freguesia. A ronda da cruz é seguida por uma trupe de comensais que de casa em casa e de libação em libação vão dando forma a um ambiente de súcia contagiante . Mesmo os convivas mais inibidos e menos folgazões exteriorizam as suas emoções, animados pela espiral de euforia generalizada.
É nestes momentos de convívio que, nesta nova era, se vislumbram as reminiscências de uma comunidade antiga, forjada na interioridade de um Portugal profundo, pobre e letárgico. Das múltiplas carências e privações emergiu um espírito comunitário coeso, fundamentado na entreajuda e na partilha. A noção de família era extrapolada para além do agregado, induzindo uma sensibilidade colectiva que comungava das alegrias e tristezas, congregando esforços em prol do bem comum.
Nem tudo, o tempo mudou…
Vítor Silvestre

domingo, 10 de abril de 2011

Numa Austera, Apagada e Vil Tristeza!

Este é o epitáfio adequado ao estado mórbido em que se encontra o património histórico português. É inconcebível e inaceitável que um país com quase novecentos anos de história despreze de forma ignóbil o seu passado. Basta percorrermos os caminhos da nossa terra para nos apercebermos da negligência e da incúria a que as autoridades competentes devotaram uma parte substancial dos nossos monumentos. Muitos já não passam de ruínas; Outros parcialmente preservados, pois embora estejam restaurados, por norma, carecem de um enquadramento informativo adequado, quer pela falta de rigor de quem os tutela, quer pela insípida formação dos colaboradores que aí trabalham; Alguns foram convertidos em pousadas e hotéis que, embora existam exemplos de uma reabilitação bem preconizada, só ficam acessíveis a poucos, ficado a maioria privada de um legado que é de todos. É constrangedor ver a displicência com que se ignora potencial turístico das obras dos nossos antepassados. Inúmeras vezes, encontro as torres de menagem fechadas a cadeado, sem qualquer uso, como testemunhas estóicas da passada glória, em locais onde o castelo é o único ponto de interesse. Portugal, não é só Sol e praia, tem um património cultural e histórico riquíssimo que deve ser reabilitado, conservado e publicitado. De Espanha pode não vir bom vento nem bom casamento, mas sabem cuidar dos seus monumentos, promover a sua cultura e não esquecem a sua história.     
Esta indignação antiga foi acicatada após uma visita ao Forte da Graça, em Elvas. Enquanto deambulava pelos baluartes, revelins, casamatas e demais dependências da fortaleza senti-me vilipendiado com o seu estado de degradação. Os anos de abandono deixaram à mercê do tempo, do vandalismo e da pilhagem o ex-líbris da arquitectura militar do SEC. XVIII. Aforaram-me à memória as palavras de Sousa Viterbo, citadas por Rainer Daehnhardt no seu livro Homens Espadas e Tomates: “Onde estão as armaduras dos cavaleiros que assaltaram Ceuta, Arzila e Azamor? Que é das lanças e espadas dos que ajudaram Afonso de Albuquerque a conquistar Goa, Ormuz e Malaca? Que é dos mosquetes que derrubaram os batalhões holandeses nas batalhas de Guararapes?” São perguntas que por mais que queiramos escamotear com respostas estereotipadas, segundo o historiador citado, invocando: a pobreza, o terramoto de 1755, o domínio espanhol ou as invasões francesas, todas redundam na inconsciência e no desleixo. O problema está como interpretamos e aplicamos a palavra “velho”: Enquanto para outros significa respeito, estima e digno de ser preservado; Para nós é obsoleto, desnecessário e, assim, desprezamos a nossa identidade histórica.
Voltado ao forte Conde do lippe, como originalmente foi designado, o seu aspecto é avassalador. A estrutura maciça composta por três linhas de defesa, destacando-se no reduto central a casa do governador, conferem-lhe uma imponência sólida, inexpugnável que impunha respeito aos invasores. Idealizado por este diplomata e militar alemão incumbido, pelo Marques de Pombal, de reorganizar o exército português, foi erigido no alto do Monte da Senhora da Graça, local estratégico na defesa de Elvas. A cidade, no decurso da guerra da restauração, durante o cerco de 1659 foi fortemente flagelada pelas baterias espanholas aí instaladas. A guerra dos sete anos veio reiterar a necessidade de fortificar aquela posição elevada, de forma a estabelecer um bastião fronteiriço capaz de desencorajar as incursões inimigas. A sua construção foi iniciada no reinado de D. José, mas seria inaugurado no da sua filha Dna. Maria. Os trabalhos prolongaram-se durante trinta anos, envolvendo um total de trinta e dois mil homens e quatro mil animais, sendo o seu custo estimado em 769.199.039 reis. Sofreu dois cercos: em 1801, durante a guerra das laranjas e, em 1811, na guerra peninsular pelo general Soult, mas não passaram de vãs tentativas intimidatórias, limitando-se a acção a algum fogo de artilharia. Com a perda progressiva da sua importância estratégica, o Estado Novo converteu-o em presídio militar. O Forte de Elvas, como era conhecido, tornou-se um fantasma que assombrava as mentes dos magalas. Mesmo depois da sua desactivação, continuou enraizado ma memória colectiva como um símbolo de sevícias e de trabalho forçado, em que os presidiários eram obrigados a transportar toda a água necessária ao consumo da guarnição.
O Forte da Graça, o Forte de Santa Luzia e as fortificações da cidade, conferem a Elvas Um sistema de defesa ímpar em Portugal. Apenas Almeida, embora em menor escala, se assemelha a esta praça-forte que se converteu na sentinela vigilante da fronteira alentejana. É merecedora de uma demorada e atenta visita, onde cada pedra representa a vontade de um povo que, contrariando os desígnios da História, “desenrascou” a sua identidade e independência, legou o conhecimento do mar e deu “ novos mundos ao mundo”.   
                                                                                                                                           Nelo Montemuro.



                          
                           No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
                                   Destemperada e a voz enrouquecida,
                                   E não do canto, mas de ver que venho
                                   Cantar a gente surda e endurecida.
                                   O favor com que mais se acende o engenho
                                   Não no dá a pátria, não, que está metida
                                   No gosto da cobiça e da rudeza
                                   De uma austera, apagada e vil tristeza.
                                                                                      Lusíadas canto X

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Eólicas: O que penso e o que sinto


Os parques eólicos, que têm proliferado nas mais inóspitas serranias, são foco de grande discussão e geradores de alguma controvérsia. Tenho lido e ouvido vários argumentos e as tomadas de posição subsequentes. Desta profusão de opiniões, noto existir uma verdade algo desvirtuada, não por intenção deliberada, mas por se basearem em pressupostos não objectivos.
Embora seja um leigo nesta matéria, sou alguém interessado e tento fundamentar-me com base no conhecimento. Mas, quando reflecti neste assunto, despoletaram em mim duas opiniões distintas e contraditórias. Esta dicotomia espontânea, que parecia fracturante e incongruente, era apenas o reflexo do dualismo existente em todo o ser humano, induzido pelas faculdades do pensar e do sentir.
Quando sinto: Sou o resultado das minhas emoções, intuições, dos interesses comezinhos, do egoísmo endócrino, da subjectividade… Por isso, quando subi à “minha serra” e fui confrontado com aqueles mega moinhos de vento que pareciam evocar os gigantes de “D. Quixote”, senti-me como se me tivessem espoliado de um legado dos meus antepassados. Aquele pedaço de natureza ancestral estava irreconhecível. As múltiplas estradas de acesso às torres rasgavam as entranhas daquela terra inviolada, como cicatrizes indeléveis da civilização. O mato selvagem, o chão imaculado estavam conspurcados com o descartável lixo da sociedade de consumo, testemunho da incivilidade que grassa por cá. Onde pastores de rostos magros e tisnados, sentados nos megalíticos penedos, desfrutavam do silêncio apenas entrecortado pelo canto das aves ou pelo balir do rebanho. Deambulava gente alva e bem nutrida, auto movida… e o silêncio não se escutava. Foi substituído pelo rugir dos motores e as vozes estridentes de citadinos eufóricos, motivados por esta cómoda aventura domingueira que lhes preencherá as conversas fúteis e as vidas rotineiras da semana. Até o vento parecia invocar, melancólico e nostálgico, o tempo antigo, em que aquelas pás afiadas não lhe desferiam golpes lancinantes que o impedem de soprar e voar livremente. Não os queria ali!... Desejei que aquele quadro se esfumasse e me devolvessem a “minha serra”, tal e qual ela era, ermitério de alguns privilegiados, onde não chegavam os ruídos e os malefícios da modernidade.
Quando penso: Sou refém da racionalidade, da lógica dedutiva, da objectividade, do conhecimento testado e quantificado … Assim sendo, sei que somos um país dependente dos combustíveis fosseis, que poluem e oneram o erário público; Sei que temos cotas de energias renováveis assumidas no seio da União Europeia, que temos de cumprir no prazo estipulado; Sei que não existe uma solução energética capaz de satisfazer as necessidades mundiais; Sei que os parques eólicos têm menos impacto ambiental que a construção de uma central hidroeléctrica…
Sabendo o que se sabe, temos que concluir que, para equilibrarmos o factor energia versus ecologia, são necessárias soluções integradas que contemplem as diferentes formas de a obter. Não podemos redundar num fundamentalismo ecológico de sermos contra tudo. Ou então, teremos de estar dispostos abdicar dos padrões de vida que desfrutamos.       
Não existem energias completamente limpas. Directa ou indirectamente, em maior ou menor escala, todas acarretam implicações ambientais. A intervenção humana altera a dinâmica dos ecossistemas, com consequências nefastas e, por vezes, irreversíveis. Mas este é o preço que pagamos, desde os primórdios da humanidade, para obtermos o almejado progresso.
As energias renováveis são uma parcela a considerar na equação energética mundial. Países mais evoluídos, onde a palavra ecologia não é um mero formalismo, estão a intensificar o investimento nesta área. Portugal não pode descartar estes recursos. Deve é faze-lo de forma controlada e respeitando as normas ambientais para a sua implementação. Os fins não podem ser obtidos sem olhar a meios, nem prevalecer exclusivamente os factores económicos e os interesses empresariais. Mas, pelo que tenho observado, não me parece que o impacto ambiental e o enquadramento paisagístico, tanto neste como noutros contextos, sejam os factores primordiais nos estudos prévios que orientam estes e outros projectos.  
 Por isso, o sentimento que nutro pelo parque eólico de Montemuro é o mesmo que sentimos pelos aterros sanitários. Sabemos que são necessários e todos contribuímos para a sua existência, mas não os queremos à nossa “porta”
Vítor Silvestre

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Muitas Graças a Deus e Poucas Graças com Deus

“Muitas graças a Deus e poucas graças com Deus”, parafraseava o povo. A religião, para as gentes daquelas paragens, era algo de muito sério para ser alvo de qualquer gracejo ou comentário menos apropriado. Era na fé que aquelas almas, sofridas e açoitadas pelas agruras de uma existência paupérrima, encontravam refrigério e recebiam alento para superar as vicissitudes do seu quotidiano. A devoção ao divino induzia um misto de temor e respeito que continha os seus impulsos e tentações, contribuindo para a ordem social e a estruturação de um ritmo de vida pautado pelos rituais seculares da Igreja. As sagradas escrituras preenchiam as lacunas dos seus parcos conhecimentos, tranquilizavam-lhes o espírito que desconhecia o absurdo e se resignava à vontade clemente e omnipotente do criador. Mas, apesar da deferência e reverência que devotavam ao clero e à instituição que representavam, há nota de alguns casos que fogem à regra e, como tal, resistem ao passar das gerações.
Era comum, num passado não muito distante, as paróquias serem visitadas por missionários que, com encenadas pregações de eloquente oratória, exaltavam o fervor religioso e emocionavam devotas plateias. Estava um destes pregadores proferindo um inflamado sermão, batendo energicamente com os punhos no parapeito do púlpito enquanto retratava dantescamente o inferno. Alternando, para amenizar atemorização geral, com a evocação da misericórdia divina reflexa no milagre da multiplicação dos pães. Mas, com o entusiasmo do discurso, inverteu a desproporção, dizendo:
-O Senhor, com cinco mil pães, deu de comer a cinco ….
Um dos presentes, antes que o orador pudesse corrigir a gafe, comentou:
- Esse milagre também eu o fazia.
O prelado, sem se dar por achado, prosseguiu, mas não esqueceu a afronta. Quando, no ano seguinte, voltou a pregar na mesma freguesia, aludiu ao milagre, mas sem se enganar. Então, ao terminar, fixando o ousado interventor do ano transacto, interpelou assembleia:
- Digam-me agora, se algum de vós também fazia este milagre?
O ousado serrano, sem perder tempo, respondeu:
- Com o que sobrou do ano passado, ainda era bem capaz de o fazer.
Esquecendo-se do local onde se encontravam, soou uma sussurrada risada perante as rubras faces do desfeiteado pregador. Consta-se, que nunca mais pregou naquele lugar, pois compreendeu que aquelas pessoas eram simples, mas não simplórias e perspicácia daquele teor não se aprendia nas páginas do breviário.
Esta estória foi-me narrada pelo “Febra”. Não me recordo se aconteceu na Gralheira e foi por ele presenciada, ou se noutro lugar das redondezas e contada por uma memória mais antiga.

A “exemina”era feita aos paroquianos, para testar os seus conhecimentos doutrinários, aquando da confissão obrigatória pela Páscoa da ressurreição. Foi pródiga em estórias caricatas, pois era com preocupação e enfado que viam aproximar-se a data de tal imposição canónica, obrigando-os a rever a doutrina que aprenderam em crianças à custa de “mosquetes” e ameaças. Alguns, embora nada entendessem, sabiam a ladainha seguida e salteada, mas outros tinham preocupações mais prementes que os ensinamentos da catequese. Por isso, de vez em quando, aconteciam exames como os que vou contar:
O “Breca”, segundo os vários relatos que tenho ouvido, era homem de carácter irascível, de poucas palavras, de poucos amigos e não muito dado às coisas da Igreja. Contudo, uma ocasião compareceu à “desobriga”. Depois de aguardar pela sua vez e ter feito as vénias e benzeduras habituais, apresentou-se para receber o sacramento, que terá decorrido nestes termos:
- Há quanto tempo não se confessa?
Ao que o inquirido com a sua voz rouca e arrastada respondeu:
- Há dez anos!
- E que pecados cometeu?
- Todos!... Menos matar e roubar.
- Muito bem… Agora… diga-me…Tem cumprido o jejum na quaresma?
- Todo o ano!... Esse preceito cumpro à “risca”.
O padre achou por bem dar por concluída a primeira parte do oficio e passou à “exemina”. Como deve ter pensado que o “exeminado” não seria muito versado nos ensinamentos da catequese, fez-lhe uma das perguntas mais elementares da doutrina cristã:
- Diga-me, quantas são as pessoas da Santíssima Trindade?
O “Breca” sem hesitar, nem notar no prefixo “tri” que foneticamente lhe indiciava a resposta, respondeu:
-São dez!
O confessor, ao ouvir tal despautério, em tom irónico comentou:
-Ainda são poucos…. Vá estudar a doutrina e volte cá amanhã.
O Homem levantou-se a ruminar impropérios e saiu do templo determinado em saber quantos elementos tinha essa trindade. Ao chegar ao adro, encontrou alguém que lhe perguntou:
-Então, passas-te na “Exemina”?
-Não!..Não soube quantas eram as pessoas da Santíssima Trindade.
Ao que o outro, perante tamanha ignorância, respondeu:
- São três!..Seu burro!
O “Breca”, com um sorriso sarcástico, retorquiu:
-Três!...Vai lá com três!...Dez disse eu e ele achou pouco!...
Não sei se o “Breca” retornou para repetir o exame, ou se chegou a saber qual a composição da Santíssima Trindade, mas sei que a estoriografia da Gralheira, de forma recorrente, recorda esta confissão de contornos tão invulgares.

Outra resposta digna de registo foi dada pelo “Branquinho”. Quando o padre lhe perguntou:
- Onde está Deus?
Respondeu com a simplicidade dos que nada têm:
-Deve estar no mesmo sitio do ano passado, pois ele não anda, como eu, de casa arrendada.

Apôs ter terminado o período destinado à confissão obrigatória, no domingo seguinte o Sr. abade, no final da missa, chamava por todos os cabeças de casal, que respondiam pelo seu agregado familiar dizendo:
-Está tudo!
Caso não estivesse, tinham de referir o número de elementos em falta.
Uma ocasião, o meu Bisavô Amadeu, pai da minha avó materna, ao ser inquirido respondeu como a maioria:
-Está tudo!
Ao que o padre, consultando os seus apontamentos, retorqui;
-Tudo não!...Falta o senhor.
Então, perante a admiração geral, o Sr. Amadeu Cerveira teve este desabafo:
-Não ia aprender mais do que aquilo que sabia…

Essa prática da “Exemina” há muito que caiu em desuso, embora se mantenha a da “desobriga”.Mas, estou certo, que se existisse, os “exeminados” ou se remetiam ao silêncio, ou as respostas seriam ainda mais inusitadas.

Vítor Silvestre

sábado, 17 de julho de 2010

Rivalidades

A rivalidade entre vizinhos é algo tão ancestral como os primórdios da humanidade. Seja pela posse da terra, acesso a recursos naturais ou por meras questões de orgulho exacerbado, todos os motivos potenciam conflitos de maior ou menor gravidade.
Os da Panchorra, como são os que nos estão mais próximo, tornaram-se os nossos arqui-inimigos naturais. As origens desse antagonismo perdem-se nos meandros do tempo e os motivos esbatem-se na oralidade das antigas memórias. Talvez por não existir uma razão palpável que sustentasse essa demanda. Ela existia apenas porque eles estavam ali e nós aqui, com o Cabrum a delimitar a fronteira física desta inimizade latente e adversa à racionalidade. Sendo o ribeiro a raia, convertia o Poço do Morrão numa espécie de terra de ninguém, local de renhidos combates pelo direito de se banharem durante o estio. Os Panchorros, como ironicamente eram designados, embora fossem em menor número, demonstravam a precisão e o alcance de fundibulários experimentados. Os seus projécteis metralhavam sem aviso os incautos banhistas que, apressadamente, recolhiam as suas roupas e subiam a encosta até à Seara do Ferro. Desse local, municiados da abundante pederneira aí existente, entrincheiravam-se e, do elevado reduto, ripostavam ao ataque perpetrado com tácticas de guerrilha elaboradas. A primeira abordagem era feita pelos mais novos, com a finalidade de criar uma manobra de diversão que distraísse os oponentes, sendo, assim, apanhados desprevenidos e sem tempo de reacção. Muitos rapazes da Gralheira aprenderam a nadar devido a estas circunstâncias. Quando se encontravam na margem inimiga, o medo superava a razão e, sem hesitar, lançavam-se à água como exímios nadadores.
Esta conflituosidade era mais visível na rapaziada, mas era reflexo de uma litigância enraizada na génese desta gente que, embora vivesse em aparente harmonia, mantinha sempre, na sua interacção, um ressentimento e uma desconfiança mútua. No entanto, existiam duas excepções: fogos e funerais. Nesses momentos, as desavenças eram esquecidas e os votos de pesar e a entreajuda eram genuínos. Nos incêndios o auxílio era fundamental. A Panchorra possuía escassos recursos de água, tendo esta, muitas vezes, de ser transportada do ribeiro até ao local do sinistro. Como também era imprescindível a deslocação para se abastecerem de géneros e mercadorias, em virtude da inexistência de estabelecimentos comerciais e a Gralheira ser o interposto mais próximo. Embora as duas aldeias fossem paupérrimas, nós éramos um pouco menos. Possuíamos mais e melhores recursos agro-pecuários e uma panóplia de serviços artesanais necessários a uma economia de subsistência. A modernidade chegou-nos mais cedo, mas os panchorrenses, capitaneados pelo famigerado “ Ruço da Cara Linda” que de forma depreciativa dizia:
- Os da Gralheira, não valem nada, só comem cebola!... - Não baixavam a cerviz e com um orgulho inabalável, porfiavam nos pergaminhos dos seus antepassados.
Este panorama não faz parte das minhas memórias. Eu nasci numa época em que o espectro da fome se dissipara e a miséria tornara-se mais modesta. Estômagos reconfortados e condições de vida mais dignas, traduzem-se em mentes mais esclarecidas e menos propensas a obedecer aos instintos primários dos que estão no limiar da subsistência. A emigração quebrou as linhagens consanguíneas perpetuadas pela interioridade, contribuindo para a emergência de identidades comunitárias mais ecléticas e menos arreigadas às suas raízes.
Gradualmente, o posicionamento antípoda deu lugar a relações mais amistosas e só esporadicamente, como nos jogos da bola, os espíritos avinhados ou empedernidos denotavam resquícios desse passado desavindo. Hoje, convivemos em paz. No entanto, o velho estigma continua impresso no subconsciente de algumas almas e, de vez em quando, ainda se ouve dizer:
- Cuidado com os da Panchorra!...

Vítor Silvestre

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A Bola



A “bola”, como é comum designar-se o futebol, foi desde os anos quarenta do século passado o principal meio de entretenimento dos rapazes da Gralheira. A sua aparição nesta remota aldeia, apesar de chegar mais de cinco décadas depois da sua introdução em Portugal, pode dizer-se que, por estas paragens serranas, foi pioneira na prática deste desporto.
“Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Da admiração inicial, Como denota um diálogo entre dois homens de Faifa:
- Olha lá!..Já ouviste falar naquela “cousa” que jogam na Gralheira…A que chamam bola?...
-Ouvi!... Correm atrás dela e dão-lhe pontapés…
- E também lhe arrimam de cabeça!..
À paixão exacerbada foi um processo extremamente célere.
Os da Gralheira, como precursores deste advento, evoluíram mais cedo que os demais e, por conseguinte, converteram-se na equipa dominante das redondezas. Desde os primórdios que se instituiu uma dinâmica de vitória, tanto nos praticantes como nos entusiastas adeptos. Aquando de um memorável jogo em Cetos, a freguesia esvaiu-se das suas gentes, uns a pé outros montados, só ficou quem não possuía capacidades ou meios para se deslocar ao local do encontro. Os visitados, influenciados pelos seus emigrantes brasileiros, reuniram uma equipa capaz de se bater com a da Gralheira e, segundo rezam as crónicas, para melhor levarem de vencida trataram de servir vinho, sem restrições, a todos os presentes. Os epicuristas não se fizeram rogados e, como raramente desfrutavam dos prazeres de Baco, deleitaram-se com abundantes libações que os deixaram meios ou completamente embriagados. Como se pode calcular o resultado foi desfavorável para os da Gralheira, pois pernas trôpegas e cabeça inebriada não deram para mais que uma derrota por cinco a um. Ainda assim, o desaire poderia ter sido maior se não tivessem convocado o “Grande de Felgueiras” que, sendo mais comedido na bebida e valendo-se da sua imponente estatura, impediu um resultado mais dilatado. O único tento dos visitantes foi obtido pelo “Necas”, que só se apercebeu do feito realizado quando se viu rodeado pelos companheiros, festejando efusivamente a marcação do golo.
Nos anos que se seguiram, a Gralheira manteve a hegemonia, de tal forma, que as suas vitórias deixaram de ser notícia. Quando perdia, então sim, era algo que dava brado e perdurava no tempo como uma efeméride que prestigiava quem a tinha alcançado. Ainda hoje, Antigos adversários recordam um resultado positivo ou um golo marcado, como momentos emblemáticos das suas amadoras carreiras.
Esta proeminência não é explicável apenas por critérios objectivos, fundamentados nas aptidões técnicas ou físicas dos seus jogadores. Embora alinhassem nas nossas fileiras elementos talentosos, como alguns jogadores sazonais filhos do êxodo rural, bem como outros fisicamente adestrados na rusticidade das lides do campo e sem os malefícios do fast-food, a verdadeira força deste grupo não residia no valor de cada indivíduo, mas no do companheiro que ombreava ao seu lado. A coesão na razão e no sentido comum, fortalecia o crer e a vontade que permitia levar de vencidos adversários formalmente mais aptos, mas que não possuíam a essência de uma mística colectiva.
Actualmente, o futebol bairrista está moribundo. É com tristeza nostálgica que denoto o abandono dos campos onde joguei. Cada um destes recintos devolve-me à memória uma panóplia de recordações inesquecíveis. A Gralheira já não é o que era, mas ainda permanece como ícone de um passado de acérrimos desafios, onde a técnica da força inflamava os ânimos da assistência que tanto exultava e aplaudia, como proferia impropérios e ameaças. A juventude tem outros interesses, proporcionados pela evolução económica e social das últimas décadas. Não está confinada ao espaço geográfico que ia pouco além da linha do horizonte. As múltiplas apelações desta nova realidade dispersam os objectivos e desagregam as vontades. A “bola”passou a ser um mero exercício lúdico, desapaixonado e sem alma, irreflexo da raça que concerne a identidade dos povos de Montemuro.
Vítor Silvestre