sábado, 8 de setembro de 2012

Conversas de “Venda”



A “Venda” era uma loja portuguesa que encarnava o papel de mercearia, drogaria, taberna, farmácia, posto dos correios e de outros negócios não catalogados. A existência desta panóplia de atividades surgiu das mentes argutas e empreendedoras de comerciantes visionários que, avaliando as necessidades das populações, as distâncias dos centros de abastecimento e a falta de acessibilidades, inventaram este conceito de comércio integrado. Aqueles bazares de província converteram-se no centro social das comunidades, onde tudo se passava e se sabia, enquanto se estava, comprava ou vendia.
Na Gralheira, sempre existiram este género de estabelecimentos. O mais antigo, de que há memória, foi a pensão do “Brasileiro”, assim denominada, por também oferecer serviços de hospedaria a viajantes e caçadores. Dizem, os que o conheceram, que não enjeitava a mínima oportunidade de negócio. Levantava-se para vender uma caixa de fósforos, ou dois tostões de água-ardente e tão célere era a abrir a porta que, segundo o “Peixe”, devia dormir vestido, para não atrasar a clientela. Mais recentemente, a loja do Sr. Pinto e o do Sr. Moisés forneciam a Gralheira e várias freguesias em redor, assim como almocreves e transeuntes de ocasião. Eram dois reputados comerciantes, levando um “Analista Comercial” da época a comentar:
- O Moisés é homem arrojado; o Pinto, grande negociante de “peis”. 
 Mas, a loja da Sra. Salomé era o exemplo acabado deste negócio polivalente. Empresária perspicaz, dotada de uma apetência intuitiva para o comércio, a sua sortida casa atraía uma vasta clientela, reflexo de uma iniciativa enérgica e máscula que, em contraponto com a do marido, motivou o seguinte elogio a um cliente de Vale de Papas:
Loja da Sra. Salomé
-Homem, homem é a Sra. Salomé; agora…bem feito, bem feito é o Sr. Joãozinho.
 Este ícone comercial resistiu ao tempo e á evolução global, encerrando apenas quando a nonagenária proprietária soçobrou ao peso dos anos, sendo forçada a resignar ao mester de uma vida.
Fui contemporâneo das “Vendas”, nelas vivi a minha infância e juventude, lá cresci e amadureci rodeado de emblemáticos contadores de histórias, que vou tentando narrar enquanto não me falha a memória.
Uma das personagens omnipresentes era o “Carrel”, invisual, bom conversador e “bom copo”. Embora se deslocasse, sem dificuldade, por toda a freguesia, pelos caminhos mentalmente conhecidos, era no Ribeirinho, nos bancos soalheiros da “Venda” do meu tio Amadeu, que permanecia a maior parte do tempo. Da sua figura baixa e atarracada destacavam-se o tronco e os braços de um gladiador. De tal forma, que, quando estava sentado, ombreava com os mais altos, criando uma ilusão ótica da sua estatura.
Foi essa compleição física, forjada na génese e no garfo, que lhe permitiu resistir a um choque frontal com um pinheiro, quando fugia a uma carga de cavalaria da G.N.R. numa zona de má fama, no Montijo. Nessa cidade da margem sul, onde residia e trabalhava numa suinicultura, passou grande parte da sua vida ativa, até se aposentar e regressar à Gralheira. Ainda o conheci com o sentido da visão, e uma das primeiras imagens que dele guardo foi, através do janelo da sua casa, vê-lo almoçar, tão avidamente, que tive a sensação que ingeria a refeição utilizando dois garfos. Utensílios que dispensou, num dia de carnaval, para comer uma cabeça de porco, acompanhada por seis litros de vinho do Cartaxo, perante a estupefação dos patrões por não demostrar o mínimo sinal de embriaguez. Embora o vinho fosse forte, a vasilha era grande e difícil de encher, ao ponto de lhe toldar, totalmente, os sentidos. Como numa ocasião, em que uns comparsas de taberna disseram, sem se aperceberem que eram escutados:
- Nós bebemos copos de dois, ele só bebe de três, vamos embebeda-lo!
O resultado saldou-se em dezoito copos de dois para cada um dos parceiros e dezoito copos de três para o “Carrel”. Como a medida de três é o dobro da de dois, o meu conterrâneo bebeu tanto como os seus amigos juntos, não se embebedou e ainda teve de leva-los a casa completamente alcoolizados.
A sua fisionomia era ideal para “jogar as quedas”, uma espécie de luta greco-romana muito apreciada naquele tempo, em provas de demostração de força. Como atesta o “Pontes”, pretenso campeão da modalidade, não hesitou em aceitar o desafio que lhe fora lançado por terceiros, na forma costumada:
-Tu vais àquele?
Como era entroncado e mais alto uma cabeça, disse confiante:
-Vou!..Claro que vou!
Mas de nada lhe valeu a ousadia, quando os braços maciços do adversário o cingiram pelas “cruzes” num forte abraço de urso, pressionando o punho cerrado nas vertebras lombares. As pernas desfaleceram e abrindo os braços apenas emitiu uma cacofonia de ais que ainda reproduz na perfeição, antes de concluir resignado:
- Aquele “ maçónico” ia-me partindo pela espinha…
Não partiu porque era a brincar, o que não teria acontecido ao médico da caixa que recusou prolongar-lhe a baixa, quando o pé fraturado não estava completamente restabelecido, acrescentando com arrogância:
-Você não quer é trabalhar!
Esse doutor era um senhor “Verdugo” e tinha a mania de “enxertar” os pacientes não submissos à prepotência de nababo que o estatuto lhe conferia. A observação era injusta e despropositada, despoletando uma inusitada reação no paciente, num tempo em quer o pobre tinha no cachaço a pata do rico e poucos ousavam desafiar a ordem estabelecida. Por conseguinte, a incredibilidade transparecia no rosto do clínico, enquanto o ofendido lhe retorquia:
- Quem não trabalha é o senhor!..Eu trabalhei a vida toda e com os meus descontos ajudei a pagar os seus estudos!...
Refeito da surpresa, esboçou uma ténue tentativa de ripostar, mas um aviso bem esclarecido manteve-o sentado e calado:
- O senhor não se levante!.. Porque a mim, você não “enxerta”!...
O homem espumava de raiva, mas escutou mudo e quedo até o enfermeiro intervir e apaziguar os ânimos:
- O Sr. Doutor tenha calma, o homem deve ter razão, a pancada foi muito forte.
 Existem muitos doutores que precisam ouvir algumas verdades. Não por serem doutores, pois o titulo está tão vulgarizado, que perdeu a aura de deferência quase reverencial do passado. Estamos no limiar da comercialização ao kilo, ou ao Metro, dos títulos académicos. Ser licenciado passou a ser um preforme essencial para ocultar a iliteracia e a incultura do país, conferindo-lhe uma sapiência virtual, creditada por documentos selados à revelia da competência e do saber, mas indutores de performances estatísticas sem precedentes na nossa história.
Hoje, não somos “enxertados”, mas quando esperamos mais que o suficiente para merecermos uma palavra de atenção e disso fazem tábua rasa; quando cobram o que entendem cobrar e não respeitam o nosso tempo; quando usam os meios públicos em proveito privado; chegamos à conclusão que o autoritarismo do passado foi substituído pelos lóbis corporativos que fazem dos cuidados saúde um negócio e não um direito constitucional de quem os recebe e um dever deontológico de quem os pratica. Para além da competência técnica que, em larga maioria, é reconhecida aos nossos profissionais, é necessária uma componente humana que vai muito além dos vinte valores.
Como disse o meu amigo Olivier, bretão, burguês e filho de reumatologista, a um desses mercenários da saúde:
- Quando o meu pai morreu, a igreja estava repleta de pessoas que eu não conhecia. Ao apresentarem-me condolências, nenhuma falou nas qualidades médicas que as curaram; enalteciam a vertente humana que as tinha ouvido… Quando o Sr. Morrer, não creio, que algum dos seus doentes vá ao enterro.
Não pretendo generalizar, porque seria injusto para muitíssima boa gente, mas, infelizmente, a bastantes serve a carapuça de não comparecermos ao funeral. 
Vitor Silvestre.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O “Mijado”


O “Tiu Domingos”, natural de Alhões, foi uma das figuras mais carismáticas que conheci. A fronte morena, encimada por espessa e hirsuta cabeleira, dava à sua robusta figura, bem provida de membros e meã de altura, a imponência necessária para fazer respeitar a incontinência urinária que o titulava. A mútua amizade que partilhávamos alicerçava-se na vontade de ouvir e no prazer de contar. Recordo os momentos passados na sua tasca, onde recebi um manancial de sabedoria inteligível, emanada da experiência e da esperteza inata a todos os preguiçosos.
Adverso à lavoura, desde cedo, procurou outra forma de vida. Sentindo-se tentado pelo “negócio” e animado por uma experiência bem-sucedida, enveredou pelo ofício de almocreve. Era uma vida dura. Os Km percorridos através de montes e vales, ao rigor do tempo, exigiam homens curtidos de pernas e de vontade, mas era mais lucrativa que os calos da enxada e proporcionava uma existência livre, recheada de peripécias e aventuras variadas.
 A sua primeira iniciativa saldou-se com um ganho inesperado, não só pelas circunstâncias favoráveis, mas também pelo partido que delas soube tirar. Fez render um odre de vinho, comprado a dois tostões o litro, para o dobro dessa quantidade e inflacionou doze vezes e meia o preço. A multiplicação do vinho não foi obra da divina providência, mas fruto de um calor abrasador e da água das corgas de Pena Cova. Uma luta de bois levou grande multidão ao planalto da serra. O dia estava quente e a assistência sedenta. A pipa, que o Zé do Belchior levara num carro de vacas, passou a “São Gulão” em menos de um ámen. Só restava o odre que parecia não ter fundo, por mais bocas que saciasse, não dava mostras de secar. Calor, sede e água fresca congregaram-se para originar e encobrir a trampolinice. Quando, anos mais tarde, contou o sucedido, numa das passagens pela Gralheira, dizia-lhe o “Tiu Lucas” regozijado com a revelação:
-Ah Domingos!... Estás no inferno… Se fosse água limpa…agora suja, daqueles atoleiros.
Esta prática de “batizar” o vinho manteve-a durante toda a vida, como me revelou o meu tio Amadeu, seu companheiro de “arrearia” e, casualmente, parceiro de negócio. Uma fonte que havia em Melcões acrescentava um almude a cada três cargas compradas em Lamego. Como o vinho era forte e carregado, a mistura tornava-o mais aberto à vista e fluido na garganta, granjeando apreciadores e potenciais clientes.
Nas suas azeméis andanças, conheceu a Cesaltina da Panchorra, com quem viria a casar e a estabelecer-se nessa freguesia com uma pequena taberna, na casa; como ela dizia ao Sr. Alfredo da gralheira que, por cortesia, elogiava a exígua vista desfrutada pelo janelo do imóvel:
-Ó Sr. “Alferdinho”!... Isto é a casa dos nossos “interpassados”.
A sua união não foi pacífica, pois a senhora era casada com o “Carreira” de Alhões que, apesar de já não ser novo, possuía uns “fígados” capazes de ocultar o cadáver da primeira mulher, durante três dias, para que os seus herdeiros não pudessem reclamar o feno que, apressadamente, metia no palheiro. Foi essa índole, aliada há impotência física para defender a honra, que o motivaram a envenenar a comida com que os diversos pretendentes se banqueteavam em sua casa. A ideia era matar, pois a estricnina utilizada não deixa margem para dúvidas, valendo-lhes ter sido colocada na panela enquanto se dava o processo de cozedura, neutralizando, parcialmente, o seu potencial. Mesmo assim, não ficaram livres de perigo, alertados por um mal-estar crescente, ingeriram azeite para induzir o vómito e evitar a absorção do químico pelo organismo. Uns por cima, outros por baixo, lá extirparam o mal que os atormentava, exceto o “Tiu Domingos” que, de bucho cheio, teimava em não regurgitar o arroz de coelho. Para o efeito, foi necessária a longa trança de Cesaltina ser-lhe inserida goela abaixo, a fim de evacuar o quimo estomacal. Não morreu do mal, mas não sei como sobreviveu à cura. Uma trança que nunca viu sabão, crivada de lêndeas e água só em dias de trovoada, parece-me mais letal que a comprovada estricnina!
Viveu vários anos na Panchorra, mas dois terços dessa estada foram passados na Gralheira, pois costumava dizer:
- Prefiro o mal da Gralheira, ao bom da “champorra”.
Nos primeiros anos, manteve relações tensas com os vizinhos. Várias seriam as causas, mas a principal estava relacionada com o Zé Porfírio de roças, que já estava estabelecido naquele lugar. A clientela não dava para um, quanto mais para dois. Por isso, começou por arregimentar aliados, minando a confiança no concorrente. Não era invulgar, pela madrugada, dispararem-lhe um tiro contra a porta, ou outro tipo de provocações. Só que o “Tiu Domingos” era duro de roer. Além de forte e destemido, não baixava a guarda, mantinha-se alerta, prevendo as jogadas dos adversários. Foi esta cautela instintiva, que lhe permitiu vislumbrar o movimento de umas giestas e antecipar-se às intenções do Eusébio, no lugar da Jagunda. Quando este se preparava para o agredir, esquivou-se ao golpe e, sem o efeito surpresa, dominou-o facilmente. Ao ver-se maniatado, suplicou por misericórdia:
“Tiu Domingos”!...Não me mate!
Ao que o “Fumegar”, no seu jeito calmo e pausado, mostrando-lhe o chicote com que tocava as mulas, respondeu:
- Não te aflijas…isto não mata…só mói!
Deu-lhe rédea solta e, na passada, estendeu-lhe o azorrague na ossada do lombo, ficando a vê-lo, de alpergatas aladas, esfumar-se por entre os penedos.
Com o passar dos anos, devido há partida do Porfírio e por não terem remédio, tornaram-se mais tolerantes, até seus “amigos”. Mas, teriam de esperar que a Cesaltina se finasse, para se verem livres deste intruso, homem bastante para lhes impor a sua presença.
Como já referi, o meu tio Amadeu era seu confrade de mester. Amiúde, irmanavam-se nas jornadas e no negócio, sendo o ponto de encontro na Panchorra. Pouco madrugador, quando o meu tio, que também nunca o foi, chegava a sua casa, invariavelmente, ainda estava na cama. Levantava-se e, sem fazer uso do lavatório que não tinha, dirigia-se ao “almário” para um “mata-bicho” de torresmos, batatas, pão e “derretudo coalhado”, aquecido com meio “cortilho” de aguardente. Depois de desjejuado, estava “enfarnado” para beber cinco litros de vinho, sem fazer outra refeição.
 Tinha amigas e uma amante, com quem contrairia segundas núpcias, o que, para uma adúltera experimentada como a Cesaltina, era intolerável. Nas uniões anteriores fora o elemento dominante do casal, chegando, nas línguas viperinas, a deitar o marido de um lado e o amante do outro. Quando, o “vicente” se apercebia do número invulgar de pés, perguntava admirado:
-Um pé, dois pés, três pés!…De quem é tanto pé Cesaltina!?
Com o “Tiu Domingos”, embora não tenha abandonado as velhas práticas, sentia-se ofendida na honra. Por isso, numa ocasião, resolveu acompanhar o marido para, como ela dizia:
-Hoje vou conhecer a puta!
Sem nada dizer, perante o constrangimento do meu tio, pôs-se em marcha, com a cegarrega a matraquear-lhe os ouvidos. Quando, entendeu distar o suficiente da povoação, mandou-lhe, sem aviso, duas “juncadas” nas ancas e, perante os gritos de:
 -Aqui-del-rei Sr. Regedor!
Disse em surdina:
-Anda lá Amadeu, não faças caso.
Quando enviuvou, regressou à terra natal e continuou com o mesmo modo de vida, adaptado a uma nova realidade. A era dos almocreves estava acabada, os muares deram lugar à camioneta. Podiam ir mais rápido e mais longe, aumentando as perspetivas de negócio. Começaram a transportar anhos, Comprados em Trás-os-Montes, para o Porto, por alturas do São João. Numa dessas andanças, depois de terem fechado negócio, o vendedor ofereceu-lhes jantar e guarida. Durante a noite, o meu tio foi assolado por uma comichão insuportável, levantou-se e verificou que a cama estava infestada de percevejos. Não se tornou a deitar, indo para a janela fumar um cigarro, intrigado por o companheiro de leito não ser atacado. Passados uns instantes, o volumoso corpo do “Tiu Domingos“ começou a ficar irrequieto, coçando-se sem parar. De repente, acorda e diz espavorido:
Ó Amadeu!... Eu não sei que tenho!...A ceia fez-me mal!
Ao que o meu tio respondeu, prontamente:
-Não é isso, são percevejos.
O “Mijado”, ainda com os olhos semicerrados, virou-se para o lado e, já descontraído, murmurou, antes de voltar a adormecer:
-Ah…são percevejos…então não tem mal nenhum…
Era um negociante nato. Fazia súcia com a clientela, pagando a primeira rodada e vendendo as várias que se seguiam. Quando, de mão em mão, o copo de litro chegava à sua vez, era escorropichado até à última gota. Esta tática, aliada à técnica da cana; que pelo batoque, volteava o vinho para que as borras não assentassem, a fim de também serem vendidas; enchia-lhe a barriga e a carteira.
Praticava uma diplomacia musculada, todos os fregueses eram bem-vindos, mas, se necessário fosse, também os punha na rua com um par de ”bufardos”.
Norteava-se pelo lema:
- O preço faz-se consoante a cara do cliente; as contas, com os amigos, são feitas de cabeça.
Queria com isto dizer, que podia pedir cem escudos, por uma taça de vinho, a uns motares de arribação, mas não mais de vinte aos “Calhordas” residentes. Quanto às contas, eram divididas de forma parcial, para que os amigos fossem beneficiados, em detrimento dos demais convivas. Das múltiplas vezes que suciei no seu estabelecimento, raras foram as que tive de pagar.
Fazia parte daquela estirpe de homens quase extintos, que viveram, à revelia do espaço e do tempo, existências duras, desregradas e plena de excessos. Quando esta conjuntura cobra o seu preço numa morte antecipada, é o tombar dos velhos bastiões de uma cultura exangue, que soçobrou ao avanço inexorável do progresso.
Resta, a vontade de ter ouvido e o prazer de poder contar.
- Oiçam!
Vítor Silvestre

domingo, 15 de julho de 2012

O “Regedor Velho”


A figura do regedor ainda está presente na memória provinciana de muitos portugueses. Este cargo administrativo, criado em 1836, esteve em vigor durante cento e quarenta anos, sendo extinto pela constituição de 1976. As suas competências sofreram várias modificações ao longo da história, datando as últimas das reformas administrativas de 1938 e 1940. A função, na generalidade, tinha a incumbência de garantir a aplicação das leis e dos regulamentos administrativos e exercer a autoridade policial na respetiva freguesia. A sua importância foi, gradualmente, sendo diminuída com a expansão das áreas de intervenção da G.N.R e P.S.P, restringindo-se a sua influência às freguesias rurais mais distantes das sedes de concelho. Eram autoridades que, servindo um estado autoritário, tinham o poder suficiente para impor a lei e a ordem, pelos meios necessários ao cumprimento das disposições legais que lhe eram confiadas. Podiam nomear Cabos de Ordens todos os que tivessem prestado serviço militar e requisitar armas a particulares, para os auxiliarem no cumprimento dos seus deveres.  
Na Gralheira durante a vigência da regedoria, muitos foram os que ocuparam o cargo, mas apenas o “Tiu António” ficou conotado com a função. Quando se referiam à sua pessoa, e por existirem muitos “Antónios” na terra, acrescentavam o cognome “Regedor Velho”. Para o facto, contribuíram a longa permanência no cargo e a respeitabilidade que granjeou durante o seu exercício. Homem dado à leitura e ao saber, os seus conhecimentos iam muito além das letras gordas da instrução primária do seu tempo. Exerceu uma magistratura equitativa, ponderada e cordata, alicerçada numa retidão moral e num comportamento cívico inquestionáveis. Ainda o conheci, e posso assegurar que daquela aparência alva e calma de septuagenário, talhada pela cadência serena de um falar grave e sério, emanava a aura inconfundível de um homem estado. Foram essas aptidões que lhe permitiram debelar situações delicadas, sem ter que redundar no autoritarismo institucional vigente.
Entre a Gralheira e a Panchorra sempre existiram atritos variados, mas eram mais visíveis por palavras que por atos. Poucas foram as situações de confrontação física dignas de registo e, muito menos, de consequências graves. Mas, certa ocasião, o Isidro, devido a negócios de saias, foi barbaramente agredido numa deslocação noturna àquele lugar, ficando muito maltratado e em estado considerado critico. Este ato covarde, perpetrado e executado por vários elementos munidos de paus, despoletou, nos conterrâneos do agredido, um incontido desejo de vingança.
 O panchorrense “Candeias”, que viria a casar na Gralheira, namorava a futura mulher e, inadvertidamente, veio meter-se na boca do lobo. Sem averiguarem o grau de responsabilidade que lhe competia no sucedido, de imediato, foi cercado, na casa da “Tia Conceição”, por uma trupe enraivecida, disposta a exercer represálias sangrentas. O sitiado era instado a sair, mas, perante exclamações como as do “Herói”, que era irmão da vítima:
- As maiores postas serão as das orelhas!...
Recusava-se a deixar a segurança relativa que a tosca porta de carvalho lhe conferia, para enfrentar um linchamento anunciado.
Permaneciam neste impasse, quando o “Tolas”; com o seu carater volátil que tanto se inflamava, como condescendia; gritou desalmadamente:
- Fogo à casa!...Não sai?...Fogo à casa!...
Esta sugestão demonstra o estado de espirito daquela tropilha, que, ignorando os inflamáveis telhados de colmo, estava disposta a sacrificar meia aldeia, para atingir o seu objetivo.
Perante esta ameaça, a “Tia Conceição” assomou à janela e, em pânico, gritou a plenos pulmões:
- Aqui-del-rei, senhor regedor!!!
O apelo foi atendido pelo “Tiu António Regedor” que, valendo-se da consideração que lhe dispensavam e exercendo a autoridade que possuía, lá conseguiu demover a rapaziada dos seus intentos assassinos, evitando que o “Candeias” fosse retalhado para encher moiras.
Também foi, durante o seu mandato, que aprisionaram o “Batoco” de Ovadas, sobre o qual pendia um mandato de captura por ter violado e seviciado várias mulheres. Foi apanhado por populares e entregue à custódia do regedor, que improvisou um carcere, turnos de guarda e escolta armada para, no dia seguinte, ser conduzido à cadeia concelhia de Cinfães. A condução do detido foi entregue a dois Cabos de Ordens, investidos de uma autoridade bem esclarecida. Como afirmou o “Mistoso”, que foi um dos escolhidos, quando, ao narrar a história, lhe perguntaram:
“Tiu Amadeu”, e se ele tentasse fugir?
A resposta foi perentória:
- Era, logo, um tiro!
Além de zelar pela lei e pela ordem, também; devido a reminiscências do passado, em que o cargo tinha o estatuto de magistrado judicial; a sua jurisprudência era chamada a mediar conflitos. As decisões poderiam não ter suporte legal, mas eram vinculativas e aceites de forma consensual. Uma das intervenções mais sensatas em que tomou parte, foi obrigar o “Copas” a comprar uma casa, para poder desalojar uma inquilina, residente num imóvel de que era proprietário. A “Fragata” era mãe solteira e as únicas riquezas que possuía eram os vários filhos de tenra idade. Como tal, o “Regedor Velho” achou inconcebível despejar uma família nestas circunstâncias, deixando-a sem o teto que ajudava a mitigar a fome. A moradia, embora pequena, foi adquirida pelo locador e doada à locatária a título definitivo e sucessório, onde morou até ao fim dos seus dias.
Ao escrever esta crónica, vou refletindo sobre o estado de impotência a que chegaram as autoridades e instituições deste país. É uma pena, que com a imprescindível liberdade, não tivéssemos adquirido uma responsabilidade madura, capaz de garantir as aspirações legítimas dos cidadãos, sem descambarmos no laxismo, na permissividade e numa visão assimétrica entre direitos e deveres. Quase quarenta anos de democracia, não conseguiram consolida-la em toda a sua plenitude. Enquanto tivermos uma nação burocratizada; emperrada por processos letárgicos; regida por leis ambíguas, que permitem dualidades jurídicas entre grandes e pequenos; não temos um sistema eficaz e credível, nem somos o estado de direito que almejamos ser.
Faziam cá falta, algumas qualidades, de alguns “Velhos regedores”…
Vítor Silvestre

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O “Gabirú”


“Estás metido numa alhada, pior que a do falecido Gabirú”. Esta expressão é comum escutar-se, na Gralheira, quando alguém está numa situação complicada. Desde que me lembro, sempre a ouvi e refleti sobre o seu fundamento. Todos os gralheirenses a conhecem e pronunciam, mas poucos pensarão no motivo da sua origem, ou da conotação com a personagem evocada.
 Quanto a mim, penso que a “alhada” em que o “Gabirú” se viu metido, foi ter investido num negócio sem estar qualificado para exercer o mester. Fundou uma tasca, daquelas que tinham vinho, cigarros e pouco mais; situada na constrita rua dos “Indígenas”, em espaço exíguo, pouco iluminado e apenas frequentado por fregueses de baixa condição.
A rapaziada procurava-a para serandar, pois era o único local que os acolhia até horas tardias e permitia burlar o inepto comerciante. Tinham vários estratagemas que usavam com eficácia comprovada. Quando, por alturas do Natal, a magra oferta de produtos era substanciada com a venda de figos, os meliantes abeiravam-se do tosco balcão e pediam uma quantidade superior àquela que o vendedor poderia colocar na balança num único punhado. Quando este se baixava, para perfazer a diferença necessária a satisfazer o pedido, mãos ágeis e ávidas subtraiam parte da mercadoria, sem que a rapina fosse notada. Mais figos iam sendo colocados no prato, mas o fiel teimava em manter-se desnivelado. Até que, intrigado com o caso, o marçano exteriorizava um ténue sinal de desconfiança:
-Diabo dos figos são mais leves do que parecem…
Noutra ocasião, estava uma súcia armada, quando alguém sugeriu que o bagaço “caía” melhor com pão de milho. O Floriano, de imediato, ofereceu-se para ir busca-lo a casa, mas saiu pela porta e dirigiu-se ao quelho que ficava nas traseira do estabelecimento, onde existia um janelo de dimensão suficiente para deixar passar o seu estreito “cabide”. Entrou, furtou uma broa e trouxe-a para partilhar com os convivas que, à luz da candeia, emborcavam o quartilho de aguardente. Não obstante ter surripiado o pão, ainda teve a desfaçatez de o oferecer ao “Tiu Zé”. O convite foi aceite sem desconfiança, mas, enquanto o mastigava, notando que tinha um gosto familiar, comentou:
- Este pão sabe igual ao meu…
Ao que o descarado ladrão, com um sorriso trocista, complementou:
-É verdade, coma!... Que come do que é seu.
Num tempo e num lugar de escassos recursos, os negócios não prosperavam. Por isso, era com ansiedade que os negociantes viam aproximar-se alguma festividade, esperançados no fluxo adicional de fregueses para compensar o défice da “gaveta”.
 O “Gabirú”, no dia da festa da padroeira, resolveu transformar a taberna num restaurante improvisado. Para o efeito, contratou um cozinheiro, comprou e abateu várias reses, apresentando um menu de carne assada no forno para atrair a clientela. A ideia parecia ser um sucesso, pois a casa registou um movimento sem precedentes. Mas, quando foi feito o balanço final, ao invés do lucro esperado, o saldo apresentava um prejuízo incompreensível face ao volume de refeições servidas. Incrédulo com o desfecho da aposta, sem discorrer que muitos almoços ficaram por pagar e que o cozinheiro desviara parte da carne aprovisionada, o pobre empresário lamentava a sua sorte. Os conterrâneos, por preocupação, ou por malicia, ainda lhe diziam:
- Ó “Tiu Zé”!... Veja se o dinheiro não está no rol.
Ao que o homem respondia de maneira resignada:
- Pois, se ao menos, estivesse no puto do rol…
A incompetência e ingenuidade, aliada a alguma mal-intencionada clientela, ditaram a insolvência do “Gabirú”. Para além disso, também o azar lhe bateu à porta, foi assaltado. O zé Augusto de Feirão aproveitou o momento em que o incauto taberneiro estava ao soalheiro, para o espoliar do pouco que guardava na gaveta dos trocos. Não o assalto em si, mas a forma como foi executado é digna de uma menção honrosa na academia dos larápios.
Depois de se ter certificado da ausência do proprietário, entrou descontraidamente no estabelecimento e, para não gerar desconfiança no “tiu João carpinteiro” que soalhava uma casa vizinha, encetou um monólogo em jeito de diálogo:
“Tiu Zé”!.. Está bom?…Como vai isso?
-Vai-se andando… e você?
-Bem… muito obrigado…
A conversa continuou o tempo suficiente para parecer verosímil, não faltando todas as saudações e despedidas impostas pela pragmática das boas maneiras.
 Quando o Sol começou a declinar, o “Francamente”, ainda de martelo em punho, foi surpreendido pelos gritos do “Gabirú” que clamava ter sido roubado. Estupefacto com o sucedido, pois ainda há pouco tinha escutado a sua voz no interior da taberna, foi inteirar-se da ocorrência. Conjugando o seu testemunho com o da vítima, que avistara o autor do furto na Eira do Adro, chegaram à conclusão inequívoca que o delito fora consumado pelo “mestre” José Augusto.
Ainda hoje, grassam pelo nosso país muitos “Gabirús”, expressos no número de pequenas empresas que iniciam e encerram atividade num período inferior a dois anos. É que, como costuma dizer o “Seu Manuel”, que foi empresário nos dois lados do atlântico:
“O negócio é para todos, mas nem todos são para o negócio”
Vítor Silvestre.