domingo, 14 de agosto de 2011

A Banda

As gentes da Gralheira sempre manifestaram interesses culturais que iam muito além das condições sócio económicas em que viviam. Como dizia o professor Agostinho da Silva, a principal prioridade do ser humano não é a cultura, mas o sustento, e só depois de asseguradas as necessidades primárias é que tendemos a desenvolver actividades de carácter menos premente. Por isso, é quase contranatura que numa aldeia desterrada nas encostas agrestes de Montemuro, com uma subsistência paupérrima, habitada por espíritos afeitos a uma racionalidade empírica, despontassem tendências reflexas de meios mais cosmopolitas.
A corroborar estas afirmações temos a banda de música da Gralheira, fundada no início dos anos vinte do século passado. É certo que foi efémera, não durou duas décadas, mas isso pouco importa, o admirável é que tenha existido. Esta empresa só foi possível devido ao empenho de alguns melómanos que, com uma vontade férrea, reuniram o capital necessário para adquirirem uniformes e instrumentos, seguindo-se a tarefa estóica de iniciar mentes musicalmente obtusas nos trâmites do solfejo. Com abnegação e perseverança tudo é possível e, contra as probabilidades, a banda emergiu num meio ávido de eventos que mitigassem as vicissitudes de uma existência marcada pelo isolamento e pela pobreza. Talvez por isso, os seus contemporâneos a achassem de grande qualidade, em contraponto com a apreciação do mestre que num universo de vinte e cinco elementos apenas considerava ter quatro músicos dignos desse nome.
Naquela época existiam poucas estradas e, quando as havia, a cache que recebiam não permitia pagar o frete de um meio de transporte alternativo às longas caminhadas feitas pelos carreiros da serra. A partida iniciava-se muito antes de raiar o dia e a chegada já com noite cerrada. As poucas horas de sono, aliadas à lonjura do caminho, depois de uma semana de seis dias de labuta intensa, levavam ao limite a resistência física daqueles homens que, enrijecidos por uma vida espartana, abordavam uma marcha de cinco horas com a naturalidade de um passeio matinal. Apenas há memória de um episódio em que o cansaço levou de vencida a têmpera dos serranos. O “Anunciou” adormeceu enquanto tocava o bombo, caindo com grande estrondo, e, de imediato, toda a banda parou a compasso como se a batuta do maestro o tivesse ordenado. Foi uma cena hilariante para toda a assistência e um dos presentes deixou no ar uma exclamação em jeito de pergunta:
- Ele, se calhar, não ceou!?...
Como a dicção não foi muito boa, o “não ceou”, soou a ”Anunciou” e, como tal, assim ficou apelidado o sonolento percussionista.
Noutra ocasião, foram convidados para irem tocar nas festas da freguesia do Touro, onde iriam competir com outra banda. Como o evento era de relevo e não queriam comprometer o início das festividades, desta vez, alugaram uma camioneta de careira para os transportar, mas, depois de se deslocarem a pé até Bigorne e terem aguardado um período de tempo mais que o desejado, o transporte não apareceu e tiveram de fazer o resto do percurso como o tinham iniciado. Devido a este percalço chegaram para além da hora combinada, o que enfureceu os mordomos e os demais presentes que esperavam ver o despique entre as “Musicas”, como tinha sido anunciado. Estava a assistir ao arraial o “Chinela”, negociante de gado, figura conhecida e estimada pelas gentes da Gralheira que, devido à reciprocidade de afecto que sentia, ao ver os ânimos exaltados temeu pela integridade física dos retardatários músicos. Acirrar os ânimos estava um tal Mário do touro que tinha fama de valente e atrevido, valentia que não impediu que perdesse um braço por motivos passionais devido ao atrevimento, e incitando os descontentes dizia:
- Os serranos…, quando cá chegarem, … vão ver como elas lhe mordem!..
A trupe secundava as intenções e, já tocados pelo “pinga”, volteavam “juncos e marmeleiros” lançando ameaças.
Estavam as coisas neste pé, quando irrompeu pela multidão a banda a “toque de caixa” tocando uma animada marcha.
O “Chinela”, que também era conhecido e considerado por aquelas bandas, há algum tempo que apelava ao bom senso dos algozes tentando apazigua-los. Com a chegada dos retardatários, sobressaltado, preparava-se para intensificar as suas intercessões, quando, para seu espanto, ninguém proferiu uma ameaça ou sequer uma má palavra. Refeito da surpresa, interpelou a plebe em geral e o Sr. Mário em particular:
-Então, não batem nos serranos?...
Ao que responderam quase em uníssono:
- Porra!... Que homens tamanhos, tão fortes e tão feios nunca vimos na nossa vida.
Por sorte, a vanguarda era composta pelo “Pelinho”, Pinto, Florêncio, Aires, Gregório, Manuel Maria e outros que no seu conjunto apresentavam uma formatura alta, encorpada e, como diria o Aquilino, com as faces talhadas à enxó. Era um quadro que na sua maioria não primava pela valentia, mas como só foi avaliado pela aparência, os pretensos agressores acharam por bem retrair-se nas suas intenções e desculpar o atraso que foi devidamente justificado.
Os contratos das bandas não eram a “seco”, tinham a alimentação incluída. Os músicos eram distribuídos pelas casas da freguesia para comerem a fressura do “almoço” e a carne assada e o arroz do forno ao “jantar”, cabendo aos mordomos dar vinho e alguma merenda nos intervalos da atuação. Em Solgos, não seguiam este preceito, as refeições eram confecionadas pela comissão de festas e o repasto coletivo. Chegada a hora da refeição, depois da missa e da procissão, sentaram-se para degustar o cabrito que estava a ser servido, quando inalaram um odor intenso e desagradável, pois o animal era chibo velho e “inteiro”. O cheiro e sabor a bedum, mesmo para narinas e estômagos pouco exigentes, era repulsivo, intragável e quase todos se abstiveram, apenas o “Pelinho” comia com satisfação questionando admirado, com a sua fala tartamuda e nasalada, a abstinência geral:
- “Atão, não comeides?... “Tá bem bô”!...
Na sua curta história, a banda da Gralheira deixou um reportório de episódios maior que o das pautas que interpretou, enriqueceu a memória colectiva e disseminou as sementes de uma apetência e um gosto pela música que persistem no âmago da nossa cultura. Foram essas reminiscências que alavancaram, em mil novecentos e cinquenta e oito, a apresentação de um cortejo folclórico que se revelou um dos maiores eventos da região, com uma afluência sem precedentes. Também a existência e a formação de instrumentistas fomentou a fundação, nos anos oitenta do século vinte, do rancho de folclore que, apesar das carências humanas provocadas pela emigração, ainda se mantém em atividade.
Pelo legado imaterial dos nossos antepassados, devemos preservar os símbolos que dão forma à nossa identidade. Testemunhas intemporais que honrarão a sua e a nossa memória, falando por eles e por nós.   
Vítor Silvestre

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A ALDEIA E O SEXO


“O meu home nunca me viu nua”!... Nesta frase, orgulhosamente proferida, está implícita a forma como a sexualidade era vivenciada por algumas almas da Gralheira, moldadas por uma cultura cristã conservadora, incapazes de inferir que se trata de algo tão natural como o acto de respirar. Neste contexto, o sexo só é admitido no casamento, debaixo dos auspícios divinos e tendo como única finalidade a procriação; Sendo banidas todas as alusões à luxúria, à lascívia e ao erotismo, em especial nas mulheres que se queriam castas e puras nos pensamentos e nos desejos. Só assim, é compreensível a frase supracitada, pois se ao fim de uma vida em comum a nudez é assunto tabu, podemos alvitrar que as aberturas frontais das ceroulas não serviam apenas para micções.
As leis do atração e do desejo eram muito díspares das atuais. O planeamento das uniões era influenciado por padrões mais pragmáticos que, ainda hoje, remanescem dos estereótipos de beleza de alguns.
-Aquela mulher é um “Pancadão”!..
Esta expressão define uma senhora de aspeto másculo, robusta de peito, bem provida de carnes e pilosidades. Só alguém com estas características dava garantias de se converter numa companheira válida para a lida árdua do campo e de gerar uma prole numerosa que permitisse suprir as necessidades dos progenitores na velhice. A força da forma sobrepunha-se à essência do intelecto e aos conceitos estéticos. Os alimentos não estavam ao alcance de uma prateleira de hipermercado, tinham de ser extraídos da terra por mãos calejadas, ”cruzes” doridas e fronte suada. A libido era condicionada pelas necessidades de uma subsistência paupérrima pouco propensa a laivos de romantismo. As modelos anoréticas e os metrosexuais imberbes, integralmente depilados e de aspeto efeminado não seriam muito pretendidos em detrimento do perfil Neandertal.
Mas, por mais racionais que fossem as intenções, a sexualidade obedece a instintos primários que vão para além das razões objectivas e das leis humanas ou divinas. Nem o fervor religioso dos pregadores que apregoavam o inferno como castigo supremo, nem o moralismo encapotado da sociedade continha os impulsos libidinosos daquelas gentes. Mesmo das beatas celibatárias, que elegiam a religião como objectivo de vida, seriam poucas as que o faziam por convicção de fé e não por razões de natureza mais mundana. Não eram invulgares os “casamentos de capucho”, realizados ao toque das trindades, para esconder a vergonha de uma gravidez pré-nupcial. Existia também uma quota-parte de filhos ilegítimos, fruto de infidelidades e mancebias e “as quintas-feiras em Lamego”, onde algumas meretrizes, pouco predicadas, ofereciam os seus préstimos sem olhar à classe ou condição do freguês. Disso fazendo prova a história passada com o “Peixe”:
Na feira semanal de Lamego, estava o “Peixe” a “matar o bicho” numa taberna, quando irrompeu pela porta um “canhão”de formas avantajadas, com um frontispício émulo do Mafarrico e disse ao taberneiro:
- Dá-me meio quartilho de aguardente!.. Mas só pago no final da feira.
O tasqueiro, conhecedor do ofício da cliente, olhou na direção do “Peixe” e retorquiu:
- Não será preciso ficar fiado, está ali aquele que te dá já vinte e cinco tostões.
- Só!... Então é sempre ao preço antigo… tem que ser pelo menos cinco escudos.
Este diálogo travava-se como se o hipotético freguês, que se fingia alheado, não fosse dado nem achado no assunto. O camafeu, depois de discutir o preço com a interposta pessoa, rematou o negócio de modo conclusivo:
-Bem…vamos lá então pelos cinco escudos!
O “Peixe”, encarando-a fixamente, vociferou:
- Ò mulher do diabo, desapareça da minha vista!
E saiu porta fora sem dar mais cavaco.
No final da tarde estava a relatar o sucedido a alguns conterrâneos, quando avistou a abantesma perto do local onde se encontravam e exclamou:
- Olhai!... É aquela que ali vem.
Entre os presentes estava o “Rato” da Panchorra que se esgueirou sub-repticiamente, acercou-se da mulher e, apontando no sentido do grupo, sussurrou-lhe ao ouvido:
- Está ali o da taverna, vá lá agora que ele vai pelos cinco escudos.
A saída do “Rato” não tinha sido notada. Por isso, qual não é o espanto do “Peixe”quando vê aquela “balhorda” vir direita a ele de “tacha arreganhada”. Sem hesitar, fazendo um gesto imperativo, apontou o indicador para os confins da feira e atirou-lhe de chofre:
- Mundo!...Mundo!...
O “pecado da carne”, catalogado como um dos inimigos da alma, é apelativo, natural e endógeno. Por mais que se tente extirpa-lo com condicionalismos morais e teologias obsoletas que transformam o sexo num acto mecânico, insípido, assético e desprovido do desejo que caracteriza a nossa condição animal, os resultados são apenas ilusórios. Pois se Deus não fosse omnisciente e, pautando as suas decisões pela cabeça dos teólogos, não tivesse adicionado prazer ao processo concetivo, a espécie estava condenada à extinção.
 Convenhamos, se não fosse também pelo deleite carnal, quem é que, atualmente, se metia nisto de ter filhos?...

Vitor Silvestre.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Uma Gota de Orvalho

Uma gota de orvalho que se desprende
Do alto do velho carvalho, que mil anos de saber entende;
Água que corre sob a ponte de pedra gasta;
Raio de Sol que a névoa matinal afasta.

Oiço à deriva esse vento viandante,
Que trás consigo um gesto antigo, de uma lonjura mais distante;
Tempo marcado nas rugas desses penedos;
Manto de neve, tão leve, que veste os arvoredos.

Sinto no ar:...Um travo doce agreste;
Sopro de brisa que há muito tempo me deste;
Eu vejo casas a velho musgo caiadas;
Cheiro giestas no canto das madrugadas;
Espreito pelas frestas da minha imaginação,
Leio histórias antigas, escritas na poeira deste chão.

Vítor Silvestre

terça-feira, 31 de maio de 2011

Lista de expressões, arcaísmos e regionalismos usados na Gralheira

A lista que se segue foi compilada pelo Vítor Silvestre (Nelo) mas certamente existem muitos outros termos que se poderão juntar a estes. Para que este “dicionário” seja o mais completo possível contamos com a participação de todos. Portanto, se te lembrares de outras expressões que ainda não façam parte desta lista, envia-as para jojogrelhas@hotmail.com

ABADESSA: Mulher gorda.
ABORNAR: Pagar; Levar uma tareia.
ACEJAR: Seguir o rasto.
AGALIMAR: Aconchegar; Ocultar.
ALAMOM: Homem grande e forte.
ALMÁRIO: Armário.
ALMOTRIGA: Almotolia.
A MÓ DEZER: A modo de dizer; Praticamente.
AMULAR: Recuar.
ANDAR COM O TOLEDO: Querer casar.
APOLGAR: Apalpar.
À QUEIRA: Com cio.
AQUEIRAR: Acasalar.
AQUEIVAR: Impedir; Deter; Conter.
AREAR: Desnortear; Confundir; Atarantar.
ARREBENTA UM BOI QUANTO MAIS UM CRISTÃO: Demonstração de grau de intensidade.
ARRELVADO: Adoentado.
ARROCHAR: Pagar; Levar uma tareia.
ASSAPAR: Desabar; Ruir; Baixar.
AZANGAR: Saltar; Transpor.
BADAIS: Testículos.
BALHORDA: Mulher porca.
BANABOIA: Vagabundo; Estroina.
BEIXIGÃO: Sarna.
BÔ: Bom.
BOIAR: Não emprenha.
BONDA: Basta; Chega.
BUFARDO: Bofetada.
CADADAMBOS: Empate.
CALEIRAS: Escadas
CALUGA: Cachaço.
CAMÁSIO COM ORELHAS DE PEIXE: Pénis e testículos.
CAMÁSIO: Pénis.
CANGORÇA: Mulher velha, feia, mal proporcionada…
CARVALHUDA: Mulher máscula, que pragueja, profere impropérios, de baixa moral e de conduta duvidosa.
CASA DE MALHOFRE: Bordel.
CASSAR: Emprenhar.
CASTIGAR: Aceitar uma oferta de compra ou venda.
CEITOIRA: Foice. 
CHEDA: Nádega.
CHIMPO: Pulo; Salto.
CHOCLATEIRA: Cafeteira.
CÓDO: Gelo.
COLDRE: Mulher pérfida, Alcoviteira, intriguista.
COMO RABO-DE-GATO: Azedo; Amargo; Acre.
COMO UM TANHO: Gordo; Bem nutrido.
COPA: Frigideira.
CRÓNICO: Avarento; Somítico.
DERRANCADO: Danado; Ressabiado; Melindrado.
DERRETUDO: Banha.
DERRONCHAR: Desbastar.
DESBORDEJAR: Tentativa de sedução.
DESEMBAINHAR A ESPADA: Copular.
ECHO: Cheio; saciado.
ELA É DAS TAIS: Meretriz.
EMBAÇAR: Combalir; Contundir.
EMBICAR: Preliminar do acto sexual.
ENCANGADO: Engatado.
ENCOLHER OS OMBROS: Copular.
ENGAÇO: Ancinho.
ENGÉGADO: Enrascado; Pouco expedito; Limitado.
ENSAIAR: Levar uma tareia.
ESBARDANAR: Bater.
ESBORNAR: Ejacular.
ESBRINSADO: Cansado; Derreado.
ESCABRIAR: Escorregar; Derrapar.
ESCOUÇAR: Escorropichar; Esvaziar.  
ESFOIRAR: Defecar.
ESPOTRICAR: Correr velozmente.
ESQUILHAMBAR: Repreender; Admoestar.
ESTERRUADO: Queimado; Moreno; Bronzeado; Negro.
ESTRONCAR: Derrubar; Destruir; Danificar.
ESVAIRADO: Com diarreia.
FAIA: Bem vestido.
FAIELO: Cão pequeno.
FANCHONASSA: Rapariga bonita e bem torneada.
FARRAMPELHA: De baixa condição.
FATO: Barriga.
FOIRADA: Pancada; Paulada.
FOLESTRIA: Manobra de diversão; Patomimia.
GADANHA: Concha da sopa.
GAMBIARRA: Mulher alta e esguia.
GEPUM: Esperma.
GICAR: Copular.
GROI: Vinho.
IMBIAR: Cornada de bovino.
INGASOLINADO: Bêbado.
INSADO: Repleto; Provido.
INTEIRO: Casto; Virgem; Por capar.
JARREAR: Beber vinho.
JONGUIDO: Junto; Emparelhado.
LABIAR: Beijar na boca.
LANZOAR: Reclamar; Protestar.
LICANTINA: Ladainha; conversa fiada, distrativa, que serve de engodo para atingir um determinado fim.
LONAS: Orelhas.
MAFURETA: Lésbica.
MINAITA: Vesgo.
MITRADO: Sabido; Experimentado.
MORCA: Barriga.
MOSQUETE: Tabefe.
MOUMAR: Murmurar.
NAS HORAS DE CAFARNAUM: Depressa.
NOUTE: Noite.
O TAL AMIGO: Diabo.
PANCADÃO: Mulher voluptuosa, robusta de coxas e peito, bem provida de carnes e pilosidades.
PARESQUE: Parece que.
PENALVILHA: Meliante; tratante.  
PERRACHA: Vagina.
PICARO: Nariz comprido e afilado.
PINGATO: Bom vinho.
PIORRINHA: Homem pequeno, bem feito e bem vestido.
PIROLAR: Copular.
PIRTANGADA: Relação sexual; Cacetada; Mocada.
POR MÔR: Por causa.
PROSA: Vaidoso;
QUITAR: Escusar; Evitar.
RABICHO: Homossexual.
RANHOLA: Sachola velha, rompida.
RETAMBANE: Caixa de precursão.
ROSETA: Vagina.
ROUPETÃO: Esfarrapado; Remendado.
SACAR A BARAÇA: Retirar o pénis no momento da ejaculação.
SALGAR À PARTE: Casar.
SOBINA: Grande prego de cabeça larga e achatada.
SOCADO DE CARNE: Gordo; Compacto.
SOLHAL: Local para colocar a lenha.
SOLHO: Soalho.
SUÃO: Toucinho.
SUVENTRE: Abdómen.
TAMOEIRO ROMPIDO: Gasto; Cansado; debilitado.
TARÔILO: Maluco.
TÁTARO: Gago.
TELHUDO: Teimoso. 
TENDA: Forja.
TOCAR A FOGO: Masturbação.
TOCAR AO GADANHO: Masturbação
TRACANHÁS: Grande bocado
TRAPOICHEIRO: Mal vestido; Mal ataviado; Inábil. 
TROGALHEIRA: Mulher desarrumada, desorganizada, com falta de jeito.
TROUBE: Trouxe.
VERTIDO: Mijado.
VICENTE: Cabrão.
ZÁMBRIO: Pessoa que tem descoordenação motora.
ZARIPELA: Doença; Moléstia.

 


O penalvinha tentou azangar  mas bateu com os badais no lombo da abadessa






 A fanchonassa ingasolinada ainda deitou a mão à perracha mas acabou toda vertida


quarta-feira, 25 de maio de 2011

Homens e Padres


O Sr. abade, como era vulgo denominar-se o pároco, foi sempre uma figura fulcral na estrutura social das comunidades. Os paroquianos mantiveram sempre uma relação de respeito e de despeito para com o sacerdote, pois era comum ouvirem-se comentários como: “Isso é vida de padre” e “O padre ganha-o a cantar”, reflexos da diferença existente entre estas duas formas de vida. A culpa era de ambas as partes, pois os que ganhavam o pão com o suor do rosto invejavam aparência alva e bem nutrida do vigário, sinónimo de pouco trabalho e boa mesa. Os padres, por sua vez, teimavam em impor a sua vontade sem se preocuparem com a opinião e a conveniência dos demais. Mas, como é sabido, aturar o povo é um exercício complicado. Dirimir vontades e conciliar interesses nem sempre é possível, por vezes, os padres seguiram à letra as escrituras e, fosse por crença profunda ou porque a vida mansa que levavam lhes tinha amolecido a coragem, tiveram de “dar a outra face”.

Mas ”dos fracos não reza a História”, vamos desprezar a normalidade e dissertar sobre duas excepções que confirmam a regra: O padre Zé de Bustelo e o Padre Abel de Fornelos. Como se pode verificar não eram naturais da Gralheira, mas ambos foram seus párocos e deixaram uma marca indelével que ainda hoje perdura na memória das suas gentes. Teriam, seguramente, múltiplos defeitos, mas não eram temerosos. As suas acções denotam uma temeridade digna dos cavaleiros Templários e de toda uma estirpe de clérigos guerreiros que tanto se paramentavam com as vestes eclesiásticas e empunhavam a cruz, como envergavam armadura e pegavam em armas para rechaçar as hordas maometanas.
O padre de Bustelo ficou assim conhecido por ser natural dessa freguesia, que dista poucos km da Gralheira. Segundo a descrição que me foi feita pelo “Peixe”, que fora seu sacristão: Era de elevada estatura, seco de carnes que indiciavam músculos enérgicos e rijos tendões, nariz aquilino encimado por fartas e negras sobrancelhas, contrastantes com a alvura calva da cabeça. Detentor de uma fé que raiava o fundamentalismo, era devoto por vocação, celibatário convicto e puritano exacerbado. O único pecado que lhe foi imputado pelo “Diabo do Bernardino”, homem que exorcizou, foi ser “onzaneiro”, que, a fazer fé no diabo e no “Peixe”, tinha fundamento. Cuidava pessoalmente de receber a “congrua”, indo de porta em porta cobrar esse tributo anual de duzentos alqueires, distribuídos quantitativamente pelos habitantes da freguesia. Se alguém não cumprisse com essa imposição era-lhe suspensa a prestação de serviços religiosos.
Como supra mencionei, o padre Zé de Bustelo executou um exorcismo ao Bernardino. Foi, para os presentes, um acto de heroísmo sem precedentes. Assistirem ao braço de ferro entre o padre e o Diabo, tendo o último de ceder e, com um grito horripilante, abandonar o corpo do possuído, aumentou admiração do rebanho pelo seu pastor. Tanto mais, quando aceitou digladiar-se, num combate épico entre o bem e o mal, à meia-noite, nos matos da Tejosa, em data combinada. O clérigo compareceu, mas, segundo parece, o Diabo que sabe muito não por ser o que é, mas pela idade que tem, achou por bem confrontar-se com almas menos determinadas e mais fáceis de tentar.
 Defensor acérrimo das suas convicções, não congregava uma simpatia universal e granjeava alguns descontentes. Um tal ”Carreira” de Alhões que tinha por hábito organizar animados bailes em sua casa, sentindo-se lesado pela constante intromissão em assuntos que ele achava serem do foro pessoal. Combinou, com dois comparsas, emboscar o abade numa das suas deslocações para Bustelo. A cilada foi montada e aquando da passagem do emboscado saltaram-lhe ao caminho. Pensaram que, por ser padre e usar “saia”, tivesse perdido a faculdade de ser homem e perante a sua aparição fugisse com o “rabo entre as pernas”. Mas o negócio saiu-lhes mais complicado do que tinham previsto. O padre, desembaraçando-se do varino que vestia, brandiu o cajado e arremeteu contra o triunvirato atónico perante tal rasgo de ousadia. Apenas bastaram alguns golpes para sentirem que, embora tivessem a vantagem numérica, eram menos destros no manejo do pau e, antes que sofressem danos indesejados, voltaram as costas à liça e foram para casa digerir o orgulho ferido.
Esta era a têmpera do Padre Zé de Bustelo. Homem destemido e de crença inabalável no evangelho, não retrocedia perante forças humanas ou demoníacas, cobrador do que lhe era devido e proficiente ministro da Igreja.

O padre Abel, natural de Fornelos, era dotado de uma fisionomia e de uma vocação que se adequavam mais ao uso da enxada que do cabeção. O próprio me confessou que a agricultura era a actividade pela qual nutria grande paixão e sentia-se realizado ao ver um campo de milho bem cuidado. Os actos corroboravam as palavras, pois nunca arrendou ou cedeu em regime de parceria o passal de que era usufrutuário. Agricultava-o, apenas com ajuda de um criado, nos intervalos das suas funções paroquiais. Quem o procura-se mais facilmente o encontrava agarrado à charrua que envergando o sobrepeliz. O seu destacamento, em início de carreira, para Gralheira facultou o casamento da minha tia Maria “Sapa” com o seu irmão Jerónimo. Como tal, foi sempre figura próxima da minha família, conheci-o pessoalmente e privei com ele algumas vezes.
Conjugando o meu conhecimento com o de terceiros posso inferir que era homem intrépido e temperamental, “ardia em pouca lenha”, e mais depressa resolvia as coisa por actos que por palavras. Aquando da zaragata no dia da celebração do orago da Gralheira, provocada por um grupo de Alhões, que embora o fizesse de forma subtil, não se coibiu de entrar na refrega e com denodo auxiliar o seu rebanho a reprimir a petulância daqueles arruaceiros.
Mas, o episódio mais afamado da sua longa carreira eclesiástica não foi passado na nas serranias agrestes de Montemuro, mas nas encostas ribeirinhas do Douro. Depois de fazer o tirocínio regressou à sua procedência, onde, para além da sua raiz telúrica, as perspectivas de carreira eram mais promissoras que na pobre e isolada Gralheira.
Segundo parece, a rapaziada de Fornelos, nalguns festejos profanos, tinha por costume tocar o sino. O padre, como não concordava com esta prática, advertiu-os para que a não executassem. Como é sabido, pois já fomos rapazes, este impedimento teve o efeito contrário ao desejado. Nessa noite, estava o padre em casa, que era contígua ao adro, quando ouviu soar vigorosas badaladas provenientes da torre da igreja. Surpreso com tal ousadia, saiu para descompor os atrevidos. Mas, os prevaricadores não se intimidaram com a reprimenda e, como conheciam o carácter exaltado do sacerdote, já estavam “a pau”, quando confrontados, investiram proferindo ameaças. O pároco retrocedeu para a residência, pois estava só e desarmado, para deitar mão ao seu “marmeleiro” e assim enfrentar os opositores. Quando entrou, pegou no que procurava e saiu sem responder às perguntas do seu irmão Jerónimo, que ao vê-lo tão transtornado apanhou também um cacete e partiu no seu encalço.
Quando chegaram ao adro depararam-se com uma trupe eufórica, entretanto engrossada com a chegada de mais sequazes, determinada a quebrar a prepotência e o autoritarismo do padre. Perante tal desvantagem, os dois irmãos, protegendo as costas um do outro, volteavam os varapaus e, com serenidade espartana, aguardaram o assalto iminente. O vórtice conjunto dos seus movimentos mantinha os sitiantes a uma distância relativa e impedia que soçobrassem a um ataque massivo. Quando, algum mais arrojado entrava no seu raio de acção, era colhido por golpes indefensáveis que o deixavam combalido ou inoperante. Com o decorrer do recontro, a vontade férrea dos arruaceiros se quebranta e o ânimo inicial já fenece perante a visão traumática dos companheiros feridos. As hostes dizimadas vão-se retirando, deixando sós os dois beligerantes que, ao verem a debandada geral, se apoiam nos seus bordões e, ofegantes, recobram as forças dispendidas na peleja. Foi um combate rijo e teso, em que irmãos provaram ser da mesma cepa, mas o Jerónimo sempre relativizou o seu desempenho afirmando:
- Naqueles em que eu acertava, ficavam ”tente e não cai”… Mas os que tocavam ao meu Abel, já se não levantavam.
Embora o meu tio fosse um homem imponente e detentor de uma força hercúlea, a natureza dotara o padre de um temperamento mais agressivo. As suas pauladas eram vibradas com uma força anímica suplementar, advinda da índole guerreira do seu espírito, e, em perfeita simbiose, o corpo e a mente conseguem prodígios insondáveis.
 Os derrotados, não se conformando com tal desaire, resolveram “dar parte” para mitigarem a desonra sofrida. Segundo parece, o juiz da comarca era agnóstico e veiculava sentimentos ímpios para com a Igreja e o clero. Assim sendo, os queixosos depositavam grandes esperanças na parcialidade da jurisprudência que iria ao encontro das suas pretensões. Mas, como todos sabemos, naquele tempo sabia-se quem mandava, quem tinha de obedecer e da promiscuidade entre a Igreja e o estado. Na véspera do julgamento, o magistrado recebeu um emissário que lhe avivou a memória e ditou o desfecho da sentença. Por isso, ao contrário do esperado, o meritíssimo proferiu um discurso moralista, enunciando as funções do sino, dizendo:
- O sino toca-se para cerimónias religiosas: Casamentos, missas, baptizados, funerais… Não para actos profanos que desrespeitam a moral e ordem instituída.
Muitos mais episódios havia para contar sobre o Sr. Padre Abel. Alguns até fizeram as primeiras páginas de jornais diários, titulando-o de ”padre pistoleiro”, mas esses já foram relatados e escritos.    
 Em suma, este abade não era daqueles que se intimidavam com a faca e o alguidar da matança, postos, durante a noite, na soleira da sua porta. 
Vítor Silvestre