terça-feira, 20 de março de 2012

A caça


A caça é uma das atividades mais ancestrais da humanidade. Mesmo não sendo, na maioria das sociedades contemporâneas, necessária à sobrevivência dos indivíduos que as constituem, este instinto predatório permanece enraizado no seu âmago e converteu-se num setor económico relevante.
Na Gralheira, indubitavelmente, caça-se desde que o primeiro homiziado se refugiou naquelas fragas altaneiras. A serra era vasta e farta em espécies cinegéticas, assegurando uma fonte de alimento complementar aos magos recursos que extraiam daquelas encostas escalvadas e agrestes. Todos caçavam, mas poucos se licenciavam ou cumpriam “à risca” todas as imposições legais. Por isso, eram assíduas as fiscalizações venatórias, percorrendo os seus apeados elementos aqueles ermos assolados pela neve e fustigados pelo vento. Numa época em que a falta de acessibilidades e a escassez de meios aumentavam as distâncias, não era fácil consumar o transporte de um detido, resumindo-se a intervenção à identificação dos prevaricadores e posterior aplicação de uma coima. Como distavam várias décadas da informatização dos sistemas e do advento das telecomunicações globais, não era difícil para as mentes mais astutas usarem a inexistência do cartão de cidadão para debelar o pagamento de uma multa, forjando uma falsa identidade. Desse estratagema se valeu o Germano quando foi apanhado em flagrante delito numa caçada ilegal. Perante a hesitação do companheiro em se identificar, assumiu uma postura resignada e cooperante, dizendo:
-Não vale a pena negar quem somos… “Albano Cesário” e “Avelino Barbedo”.
Depois de registados e espoliados dos coelhos e sachos que traziam, regressaram a casa confiantes na resposta que seria enviada pelo regedor quando não conseguisse notificar os faltosos constantes do auto que iria receber.
Os fiscais, investidos de uma autoridade ingrata, estavam unidos pela carência àqueles que lhes competia fiscalizar. Por conseguinte, não era invulgar fazerem “vista grossa” às infrações ou aceitarem desculpas toscas, como as do “Terronha” que ao ser questionado pelas redes que trazia, respondeu:
-Foram para levar umas galinhas à feira.
Obviamente, esta condescendência era gratificada com uma parte dos proventos da caçada e, de vez em quando, faziam uma apreensão ou aplicavam uma multa para mostrar serviço e tranquilizar a hipocrisia institucional. Mas, nem todos comungavam deste pacto de conveniência e fosse por serem mais susceptíveis à retórica da corporação ou por medo de perderem um emprego mal pago, mas garantido pelo estado, exerciam as suas funções com um zelo implacável e digno de louvor.
O “Peito de Aço” e o “Baceslau” eram dessa têmpera e, por serem exemplares, eram jurados de morte por incumpridores ressentidos, alvos destes tenazes e destemidos agentes que descoravam a sua segurança em prol do cumprimento do dever.
Uma das maiores demandas que enfrentaram foi com o Alberto de Vale de Papas que, por ser meio “atoleimado”, pouco se importava com a legislação vigente e caçava a seu belo prazer sem respeitar o defeso ou as restrições ao uso de artefactos proibidos. Há semelhança, do Sr. José da Costa Russo que era caçador de profissão e todo o ano caçava com arma, rede, cão e furão, também o Alberto se viu ladeado por dois “manatas” a prestar contas à justiça.
Relatava de forma enfática a sua captura pouco ortodoxa pois, como ele salientava com a emoção espelhada no rosto “escaveirado”:
-Eles apanharam-me, com licença, a “cagar”!
Não obstante estar com as calças na mão, pegou no arcabuz de um só cano e apontou ao “Peito de Aço”, mas o cartucho que tinha na câmara, calcinado pelo verdete, não despoletou, acabando por se envolver numa luta corpo a corpo com calças e “siloiras”ao fundo das pernas. Defendeu-se com unhas e dentes, como provaria a marca de uma dentada que diz ter deixado tatuada na cara do ”Baceslau”. Subjugado, foi conduzido para Cinfães sob escolta dos captores, com os quais manteve uma postura beligerante até chegar ao destino. Foi vencido, mas não rendido, atestando com orgulho:
-Pelo caminho dei mais de mil murros, mas levei três mil. Quando lá cheguei até “mijava ” sangue. Se tenho a arma carregada com os cartuchos novos que o “Pontes” me tinha dado, aqueles figurões não se ficavam a rir.
Não sei se seria verdade, pois nos matos do castelo, ao deparar-se uma criatura que era metade mulher e metade bicho, também a espingarda lhe negou fogo, apesar de ter premido três vezes o gatilho. Mas, como dizia, quando confrontado com o facto:
- A arma não disparou, porque aquilo era o Diabo.
Muitos foram os reincidentes intimados a comparecer no tribunal. Normalmente, viam a pena ser remida a uma multa pecuniária, mas se não sofriam o desconforto do cárcere, não se livravam da onerosidade de um sistema iníquo que não os deixava mitigar a miséria.
Os fiscais eram odiados e motivavam arrufos de fanfarronice avinhada por caçadores que diziam nada temer ou dever. Mas, Longe da segurança das tabernas, bastava pronunciar-se o seu nome e os caminhos de regresso a casa eram melhores de descer do que subir, como se pode constatar no relato que se segue:
Numa ocasião, andavam a bater a cumeada da serra todos os caçadores da Gralheira e alguns da Panchorra, quando o panchorrense “Pitadas”, com a sua voz de falsete, fez a seguinte observação em jeito de pergunta:
-Se aqui aparecessem os fiscais, o que fariam no meio de tanto “home”?
Ao que a maioria respondeu num tom que roçava o histerismo:
Que fariam?...Nada!...  Que haveriam de fazer!
Ainda desfrutavam da euforia do momento, quando ao “Estrugido”, que já descambava para a outra banda da encosta, aflorou a “pancada” que recebera à nascença e, freneticamente, gritou:
-Fiscais!..
Todos, excepto o autor da confusão e o “Crioilo” que estava ao seu lado, se lançaram por aquelas ladeiras numa corrida desenfreada sem olharem para trás ou ajudar o “Sr. Joãozinho” que ao passar um barroco ficara suspenso na densas “urgueiras” que o ocultavam.
Embora os caçadores continuem a estar incluídos no grupo dos mentirosos, a evolução económica e social que ditou o fim do regime livre e redefiniu o contexto em que a prática deste desporto se enquadra, remeteu os episódios supra narrados para a prateleira das memórias passadas. Actualmente, o associativismo consciencializou os caçadores para práticas de caça mais equitativas e consequente preservação da biodiversidade dos ecossistemas a fim de garantirem a sustentabilidade futura.
Os recursos naturais são uma dádiva finita. Mesmo aqueles que já não usamos por necessidade devem ser preservados, pois não é garantido que o caminho que percorremos nos leve para diante. Por mais que nos custe imaginar, à semelhança dos nossos antepassados, poderemos ter que objetivar a caça não apenas numa vertente lúdica.

Vítor Silvestre.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O “Abilinho”

O meu tio Abílio, irmão do meu avô António, é uma das personagens mais incontornáveis na memória dos gralheirenses. Mesmo os que não tiveram a sorte de terem sido seus contemporâneos conhecem aquela figura bonacheirona e de olhos proeminentes, reflexa de um carácter jovial e traquina, tangível no diminutivo pelo qual era conhecido. As suas travessuras geraram um infindável legado de histórias risíveis que amiúde vão sendo recontadas por quem teve o privilégio de as ter testemunhado, ou ouvido e assimilado como se as tivesse presenciado.
Por ser meu tio-avô e eu também ser propenso a fazer “judiarias”, fui sempre indiciado como seu direto sucessor, herdeiro legítimo daquele conceituado “jarifas”. Mas, embora tivesse a minha quota-parte de diabruras, fiquei sempre aquém do meu antecessor. Faltava-me um tudo-nada daquele dom natural que confere, apenas a alguns, o epíteto de mestre.
Desde tenra idade o seu espírito travesso deu sinais da personalidade que viria a moldar toda a sua existência. A tal ponto, que o meu Bisavô “Gaitas”, em desespero de causa, agarrou-o pelo pescoço e abeirando-se do ribeiro em “Talremouço”, exteriorizou o dilema que lhe ia na alma:
- Não sei se te mato ou não!..
A razão deste extremo deve-se ao facto do meu tio ter-lhe roubado e vendido um alqueire de centeio, obtendo assim a quantia de cinco escudos para pagar à “Faifa”o serviço de se meter na cama com o seu tio Lino: Homem velho, solteiro, devoto e celibatário. Quando, um dia pela manhã, viu entrar-lhe pela porta tão inesperada e má reputada visita com intenções bem esclarecidas de lhe macular a castidade impoluta de uma vida, o homem entrou em choque e, apelando por ajuda terrena e evocando o temor divino, gritava como um perdido:
- Ai quem me acode!....Vai-te seu estupor!... Ainda cai aqui um raio nos fulmina…
Escusado será dizer que o mandante da obra estava escondido na “loja” da vaca, situada no piso térreo da casa, a desfrutar da afição do seu parente para impedir as tentativas simuladas da meretriz.
 Devido às múltiplas travessuras, o meu bisavô decidiu alista-lo na marinha, afastando--o daquele meio demasiado restrito para albergar uma alma tão dissonante da ortodoxia generalizada.
Partiu para Lisboa e, para espanto de todos, quando veio de licença já ostentava as divisas de sargento. Esta ascensão meteórica ganhou a verosimilhança necessária a todas as mentiras quando ao entrar no estabelecimento do Sr. Moises deparou com uma patrulha da G.N.R., em serviço de rotina. Perante a entrada de um graduado, de imediato, os soldados colocaram-se em sentido e bateram continência, ao que o Abilinho, com naturalidade, correspondeu ao cumprimento e, pausadamente, ordenou:
- À vontade.
Como tinham sido apanhados com a “boca na borracha”, balbuciaram uma ténue desculpa com a intenção de se retirar, mas o impostor, com o pretexto de aplacar a sede provocada pela poeira do caminho, convidou-os a partilhar a rodada que queria ofertar a todos os presentes na taberna. Com algumas reservas, aceitaram o convite, mas, após várias canecas de vinho, o constrangimento inicial deu lugar a um convívio animado que culminou num estado pouco recomendável para agentes da autoridade e sargentos das forças armadas.
Este episódio foi presenciado pelo “Peixe” que também ficou convencido da legitimidade do posto em que o meu tio tinha sido graduado. Só algum tempo depois é que a verdade foi revelada e puderam avaliar o logro em que tinham caído, mas não foi difícil acreditar na patranha, pois como dizia o Peixe:
- O que nos convenceu foi ele perante a “guarda” manter a calma, sem nunca perder a compostura.
Devido às suas andanças pelo mundo, quando regressava à “terra” era sempre motivo de grande animação, em especial à saída da missa onde por entre meias verdades e mentiras ia distribuindo maços de cigarros americanos muito apreciados por aqueles fumadores de “mata ratos”. Fosse por empatia, curiosidade ou interesse, a assistência ouvia atentamente estórias mirabolantes, como: Macacos a jogarem à bola com cocos, no Brasil; Uma rixa em Taiwan, onde desbaratou um trio que o queria assaltar sobe a ameaça de uma navalha e muitas outras que causavam espanto àquelas mentes simples e crédulas.
Quando passou á reserva, período que abarcam as minhas memórias, passava longas temporadas na Gralheira e não perdida uma oportunidade para pregar boas partidas. Embora ninguém estivesse a salvo das suas tropelias, que incluíam contratar os serviços da rapaziada para lançar sacos de água sobre quem estava sentado nos bancos fronteiros à taberna ou pedregulhos para o tanque onde as mulheres lavavam, tinha alguns alvos privilegiados. O “Carbunário” era uma das vítimas mais assíduas, todos os pretextos eram válidos para atentar contra a pacatez bucólica em que vivia. Tinha especial prazer confronta-lo com a minha tia “Serôdia”, à qual se aliava a “Severa” para completar o trio da discórdia que muito animava o saudoso Ribeirinho daquele tempo. No calor da discussão eram proferidas ameaças e impropérios para todos os gostos, lançavam atoardas e as mais inusitadas represálias, como o “Carbunário” dizer à minha tia:
-Não “cago” mais na tua “arretrete”!  
Esta tomada de posição que hoje parece desprovida de qualquer nexo, não era assim tão descabida e digna de ser encarada de ânimo leve. A “arretrete” não tinha esgoto e os dejectos ficavam depositados no desnível existente na parte inferior, onde eram misturados com mato de forma a produzir estrume que, numa época em que os fertilizantes químicos não estavam em uso, era essencial para a lavoura.
Apesar das suas brincadeiras levadas ao limite, na generalidade, era pessoa bem quista e prezada pela comunidade, pois tinha uma índole bondosa e franca que facilmente gerava mais empatias que antagonismos. A mão que conspurcava com um punhado de terra a água que a tia Aninhas trazia da fonte ou lhe rebolava uma pedra em direção à lareira para lhe tombar as panelas também lhe mitigava a pobreza em que vivia, enviando-lhe um avio de mercearia ou convidando-a a partilhar um quartilho de vinho para aplacar o rosário de pragas com que era mimoseado, depois de se ter deleitado ao ouvi-las.
Infelizmente, ele e a Aninhas comungavam do gosto pelo néctar de Baco, no seu caso, demasiado excessivo e não era invulgar vê-lo “tocado pela pinga”. A D. Lurdes, sua consorte, bem tentava combater a dependência incontrolável do marido, pedindo aos taberneiros que lhe restringissem o consumo e escondendo as sucessivas mangueiras que ele usava para ferrar os pipos pelo batoque, mas sem sucesso.
O alcoolismo e a obesidade foram-lhe debilitando a saúde e as crises de fígado, volta e meia, tinham-no acamado. Numa dessa recaídas o meu avô foi visita-lo e, como irmão mais velho vinte anos, estava a admoestar-lhe uma grande reprimenda onde o aconselhava a preparar-se para entregar a alma a deus, quando ele, fitando um calendário com uma modelo semi-nua, lhe disse:
-Ó António… Ah ricas espanholas!.. Até tocavam castanholas com as unhas dos pés.
Perante tamanha insensatez, o meu avô levantou-se e saiu porta fora, exclamando:
- Tu não tens salvação!..
E não teve, pelo menos terrena, pois não chegou a septuagenário. Morreu, no hospital da marinha, no dia em que faleceu o Sá Carneiro e foi sepultado no mesmo cemitério em Lisboa. A sua chegada coincidiu poucos minutos antes do funeral do primeiro-ministro e, por conseguinte, passou pela formatura destinada a prestar as honras de estado à individualidade. Como militar, a sua urna vinha amortalhada com a bandeira nacional. Perante um dos símbolos da pátria, as forças em parada apresentaram armas, proporcionando-lhe uma partida condizente com eloquência dos episódios que criou. Como diz a minha prima Rosa Maria, acompanhante do cortejo fúnebre:
- Se ele pudesse contar, aos da Gralheira, o seu funeral, seria mais uma estória que ficaria para a história.
A esses não contou, mas tenho a certeza que, onde quer que esteja, dirá, como era costume iniciar uma narração:
- “Isto outra vida”, eram mais de quatrocentos homens perfilados a prestarem-me homenagem.
Muito haveria a dizer e ainda mais a contar, mas é impossível abarcar toda sua magnitude numa crónica mal talhada. Fica para um projecto mais abrangente, não que a sua imagem corra o risco de se desvanecer nos meandros do tempo, pois uma figura tão enraizada na oralidade de um povo, certamente, não carece de ser escrita para garantir a memória futura.    

                                                                                           Vitor Silvestre.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Ruço da Cara Linda


“O Ruço da Cara Linda”
 Não era necessário ser versado em toponímia para destrinçar os fundamentos que deram origem a cognome tão pomposo. A tez clara e sarda e o escalpe aloirado eram provas cabais que ali não se imiscuíra sangue mouro ou latino. Apenas o corpo quase meão, moldado pelas carências de uma infância subnutrida, desvirtuava as origens celtas ou visigodas dos seus antepassados. Panchorrence de gema, pela força do seu carisma converteu-se no capitão-mor da legião de arruaceiros da dita freguesia. Não havia festa ou romaria onde o “Paula “, com o seu séquito de rufiões, não comparecesse para intentar alguma escaramuça colateral. Líder astuto e pragmático, não se regia por códigos de honra ou de nobreza. Nunca procurava o combate aberto e frontal, preferindo desferir ataques cirúrgicos em que o fator surpresa ou a vantagem dos números lhe garantisse uma sortida bem sucedida.
A única exceção a esta estratégia foi executada na invasão a Vale de Papas, no dia da festa consagrada à padroeira. Reuniu as hostes e, em formatura, irromperam pelas ruas do lugar tocando apitos, assumindo uma postura atrevida e provocatória, dizendo:
-Aqui manda a Panchorra!
Os papences, embora fossem em menor número, tinham salgadeiras mais fartas, caixas rasas e os longos dias de cavada tinham-lhes robustecido o corpo e o espírito para prepararem um ataque consertado. Conhecedores do labirinto de ruelas e quelhos da sua terra localizaram com facilidade os confiantes e estridentes invasores que, sem se aperceberem, foram cercados e atacados em duas frentes. Enfrentando o ataque simultâneo, cerraram fileiras, mas o ímpeto inicial da investida rompera as suas linhas e, para piorar a situação, o comandante “Ruço” e seu filho e lugar-tenente Anastácio foram postos fora de combate por dois golpes certeiros do “Cabeça de Vaca”, cuja cernelha pedia meças à de um touro de lide. Desgovernados e dispersos foram facilmente desbaratados, não lhes restando outra saída senão retirar o mais rápido possível, com os perseguidores no seu encalço. O caudilho, muito maltratado, acompanhou a debandada das suas tropas apenas escoltado pelo Anastácio, mas, perante o caos do maior desastre da sua carreira, manteve o garbo e a postura que o seu posto exigia e, ignorando o perigo, ordenou ao subordinado:
-Alto!..Tenho que “cagar”.
O subalterno, fosse pelo dever hierárquico ou respeito filial, obedeceu, ficando de plantão até o serviço estar terminado e ser dada ordem de marcha.
Apesar do retumbante insucesso, não feneceu o espírito bélico deste exército de insurretos incorrigíveis, apenas, no briefing subsequente, resolveram retornar às velhas táticas de guerrilha e continuarem a dar e receber monumentais cargas de paulada.
 Aventurar-se no seu território era incursão arriscada que, quase sempre, redundava nalguma situação difícil de debelar. Assim aconteceu a um indivíduo de Gosende que, atraído pela luxúria de um baile à porta fechada, viu-se metido numa “alhada” quando o “Ruço”, no rescaldo da zaragata ocorrida na pista de dança, o descobriu escondido no caniço. Ao ver o olhar impiedoso do algoz, lançou-lhe uma humilde súplica:
- Ó “Tiu Paula” não me bata.
Ao que este, com sarcástico eufemismo, retorquiu:
- Eu não te bato, apenas encostas a cabecinha ao pau.
O “encaniçado”, desfeita qualquer esperança de clemência, mediu a distância e, quando o carrasco se preparava para lhe assentar uma cacetada, deu um salto indo-lhe embater, “a pés ambos”, no raquítico peito. O “Cara Linda”, “embaçado”e estirado no soalho, ainda gritou:
- Agarrai-o!!!...
Mas sem sucesso.
Os anos foram passando e, conjuntamente com as sequelas de uma vida atribulada, forçaram o descanso do guerreiro. Gozava a pensão de subsistência repartida entre o seu torrão natal e a rua José Patrocínio em Lisboa, enclave panchorrence estabelecido pelo êxodo rural. Podia já não percorrer feiras e arraiais, mas na sua mente pairavam os resquícios desse passado saudoso e, quando estava “ingasolinado” nalguma taberna do “Bairro Chinês”, ainda o ouviam murmurar:
-Aqui manda a Panchorra!
Foi num desses ébrios antros que um emigrante no Brasil lhe perguntou:
-O “ sinhor” é “o Ruço da Cara Linda”?
Ao que o interrogado respondeu com a costumada ousadia:
- Eu mesmo!
- Que “bacana”, como é que ainda é vivo?
Estupefacto, fez um esgar pronunciado e ripostou:
- Então porquê, já me mandou a morte?
-Não, mas como levou tanta pancada, pensei….
O velho “Paula” oscilando ao de leve a cabeça em sinal de assentimento, depois de uma breve reflexão, respondeu:
-Pois levei, mas o meu quinhão não ficou por dar.
De todos os inimigos e adversários que constavam do seu rol, os mais estimados eram os da Gralheira. Era um ódio endógeno alimentado desde o berço por um antagonismo secular, cada vez mais acirrado pelos indícios de modernidade que começavam a despontar nos seus vizinhos. A luz elétrica era o que lhe deixava o travo mais amargo. Talvez por ser o mais visível e servir como arma de arremesso na constante troca de galhardetes entre as duas aldeias. Por conseguinte, quando viu, duas décadas depois, iniciarem-se os trabalhos de instalação dos cabos e contadores para receberem a tão aguardada energia, o seu espírito ressabiado exultou de alegria. Não conseguindo conter a ansiedade, acompanhava a evolução da empreitada, perguntando insistentemente:
- Então, quando é que a luz está pronta?
Ao que os operários, para tranquilizar aquela alma inquieta, respondiam com diligência:
-Já falta muito pouco, não se preocupe que dento em breve verá a sua terra iluminada.
Ao que o impaciente inquiridor, monologando com os seus botões, dizia em surdina:
- Agora, é que vamos fazer ver aqueles “merdas” da Gralheira quem é que tem luz…
Os trabalhos foram evoluindo e foi marcada a data da inauguração para o dia da festa em honra de S.Lourenço. Toda a freguesia se engalanava para celebrar com pompa e circunstância a efeméride, para gáudio do decano comandante que aguardava triunfante a realização do evento. Mas, insondáveis são os desígnios divinos ou os caprichos do destino e, pouco tempo antes da data anunciada, finou-se o famigerado “Ruço da Cara Linda”. Foi com grande pesar que a notícia foi recebida pelas redondezas, mesmo aqueles que tinham sido alvo das suas emboscadas, com o passar do tempo, encaravam com complacência as ações deste senhor da guerra, afluindo em grande número ao funeral. Um dos mais pesarosos era o Anastácio, descendente em primeiro grau, confidente e fiel companheiro de muitas jornadas. Conhecedor das apetências do seu pai, no cortejo fúnebre, carpia a dor com um lamento muito peculiar:
- Aí paizinho!... Tanto querias ver a luz e não chegaste a ver a luz…
Não viu a luz, mas a sua imagem ainda resplandece na memória da nossa gente que o recorda como homem de uma época em que as disputas bairristas, geradas na ignorância e acicatadas pela miséria, eram mediadas pelo “jogo do pau”. Mais temerário que valente e mais ousado do que destro, é recordado como uma figura pitoresca, muito diferente da reputação de desordeiro que os seus atos indiciam. Permanece como personagem de uma era, à qual assisti ao epílogo, reflexa de um Portugal antigo, preservado por uma evolução comezinha e assimétrica, que poucos desejam… mas deixa alguma saudade.
Vítor Silvestre

domingo, 16 de outubro de 2011

Os “Barbas Longas”de Feirão


 A forma como os “feirões”eram apelidados nada tinha a ver com a sua fisionomia. Não seriam imberbes, mas, certamente, as suas faces esquálidas não ostentavam barbaças que rivalizassem com as representadas nas xilogravuras de Afonso de Albuquerque ou D. João de Castro. O termo, não sei porquê, era depreciativo e conotava-os como gente de “olho vivo e pé ligeiro”. É que a necessidade aguça o engenho. Quando se tem pouco mais que a água da fonte e ferrar os dentes em cascas de carvalho não sacia as agruras da fome, até um cristão se desenvencilha como pode. De maneira geral, tentavam equilibrar a sua economia com expedientes mais ou menos ilícitos. Mas, se convergiam no objetivo, divergiam no método.
 O José Augusto ia furtando uma carteira, roubando um cordeiro, forçava a entrada numa residência, mas sem nunca recorrer à ameaça verbal ou violência física, era ladrão e cavalheiro. Representava, como direi… o papel de repartidor público que partilhava os proventos obtidos em animadas súcias. Foragido hábil e perspicaz, mas quando confrontado pelas autoridades confessava crimes e cúmplices e, se a fuga não fosse possível, entregava-se sem resistir à detenção. Outros eram de outra índole, não se coibiam de intersetar os incautos viandantes daquelas serranias, intimidavam e agrediam, espoliando-os dos seus pertences. Mas, algumas vezes, falharam os seus intentos, pois nem todos se amedrontavam ou andavam desprevenidos, tornando-se alvos difíceis de apanhar.
O Cândido, natural de Mangualde, casou na Gralheira e aí se estabeleceu no negócio de fazendas a retalho. Por imperativo da profissão fazia inúmeras viagens cujo as rotas, inevitavelmente, cruzavam alguns caminhos batidos pelos bandoleiros. Precavido, não acompanhava as duas mulas que transportavam a carga, seguia-as a alguma distância para evitar ser emboscado. Numa ocasião, ao passar na Alagoa, viu uns vultos acercarem-se do carreiro e segurarem as bestas pelo cabresto. Deitou mão à carabina de sete tiros que trazia na bandoleira e, em menos de nada, duas balas rasantes zuniram nos ouvidos dos meliantes. Estes, nem esboçaram a mínima resistência, deixaram a presa para não deixarem a pele, o autor dos disparos abatera um cão raivoso a mais de trezentos metros, sabiam que o facto de saírem ilesos não foi obra do destino.
Noutra ocasião, cavalgavam lado a lado o Pinto da Gralheira e o Zé Camilo de Cotelo quando lhe saltaram adiante meia dúzia de rufiões de paus em riste, com intenções bem esclarecidas.
Depois de refeitos do inesperado atrevimento disse, calmamente, o Zé para o companheiro:
- Como é…Desmontas tu ou desmonto eu?...Para estes “farrampelhas” não será necessário apearmo-nos os dois.
Ao aperceberem-se de quem tinham pela frente, dois homens de estatura e ombros a condizer que não atalhavam caminho perante o perigo, gritou o mais espavorido:
- “Fujide”!.... É o Pinto e o Zé Camilo!...
 Para evitar estes desaires, que podiam pôr-lhes em risco a integridade física ou leva-los a prestar contas à justiça, a maioria recorria a um estratagema mais dissimulado, mas não menos doloso para a bolsa dos que, por desconhecimento ou descuido, se aventuravam a passar pela cita freguesia. Abordavam-nos e de forma jovial, mas denunciando o firme intento de os conduzir para a taberna, onde eram coagidos a pagar o que lhes apetecesse consumir. Era um método menos arriscado e mais fiável, mas não totalmente eficaz, pelo menos não o foi na história que passo a contar:
O “tiu Tobias” regressava à Gralheira, quando, nas imediações de Feirão, notou que não tinha tabaco, o vício venceu o medo e a razão, decidindo ir lá comprar uma onça. Mal tinha chegado junto à venda, já se encontrava cercado de rapaces e, segurando as rédeas da égua que montava, disseram-lhe em tom familiar:
-Uhei!... Ó Tobias!.. Hoje, pagas um cântaro de vinho!
O homem, vendo-se encurralado, respondeu de forma entusiástica:
-Um cântaro!... Até pago dois!
Devido à imediata anuência, os detentores diminuíram a pressão no freio do animal que, embora não fosse um puro-sangue ainda guardava alguma nobreza da origem da sua linhagem, instada pelo instinto que a impelia ao movimento resfolegava e escavava no chão térreo de músculos e tendões tensos, prontos para reagirem à ordem do cavaleiro. Conhecendo a fogosidade da montada, aproveitou a desatenção generalizada para fincar os calcanhares nos seus flancos. Como uma mola, o equídeo projectou-se para diante derrubando quantos se lhe interpunham na passagem e, a toda a brida, só a viram escapar, como uma “fopa”, na curva que se seguia. Apenas tiveram tempo de lançar uma ameaça, enquanto arfavam estendidos na poeira do caminho:
-Ah!!! … “Fareleiro”!... ”Hades” cá passar!
Mais recentemente, o Alfredo, meu primo afastado, passava pela estrada que atravessa o lugar quando um cachorro veio enfiar-se debaixo da viatura. Nada pode fazer para evitar o acidente, mas, de imediato, foi abordado pelo pertenço dono, secundado por uma trupe pouco amistosa, exigindo ser compensado pela perda material e sentimental que sofrera. Por sorte, estava presente o “Clemente da Barraca” e, como anda desavindo com grande parte dos seus conterrâneos, resolveu intervir em prol do pacato Alfredo que estava prestes a ser sentenciado por aqueles juízes em causa própria. Com a tomada de posição do temperamental Clemente, os ânimos serenaram, a sua fama de pistoleiro era suficiente para garantir salvo-conduto ao réu. Mas, o meu parente, para evitar complicações futuras, resolveu oferecer cinco contos para minimizar o prejuízo causado. Perante tal oferta, dissiparam-se as hostilidades e, em ambiente de farra, esgueiraram-se para o café onde cambiaram a nota, sem demonstrarem o mínimo pesar pela vítima do sinistro.

Esta realidade é uma nebulosa memória de outros tempos, em que a pobreza não sabia quantos filhos tinha. O espetro da fome era real e pairava ameaçador sobre aquelas almas. Subsistir era uma prioridade premente que o consumismo das últimas décadas não consegue conceber. O que nos sobra em supérfluo, faltava-lhes no essencial. Por isso, estes actos têm que ser analisados no contexto histórico em que se inserem, não podemos fazer juízos de valor fundamentados na realidade dos nossos dias.
No entanto, se passarem por Feirão … Reduzam a velocidade, redobrem atenção, não vão atropelar um canídeo e dar pretexto, remanescente dos velhos hábitos, para vos extorquirem uma canada.
Vítor Silvestre